
Um episódio ocorrido nesta quinta-feira (11), em Teresina, escancara de forma brutal a realidade de milhares de mulheres piauienses que vivem sob ameaça constante: as medidas protetivas, muitas vezes, não protegem. O advogado João Paulo da Costa Nascimento, de 40 anos, foi preso em flagrante após invadir o apartamento da ex-esposa, no bairro Angelim, e tentar assassiná-la com uma faca, descumprindo uma decisão judicial que deveria manter a vítima em segurança.
O caso, tratado como tentativa de feminicídio, só não terminou em tragédia porque os filhos do casal intervieram, impedindo o crime. Mas o que chama atenção não é apenas a violência em si, e sim a dinâmica que se repete: homens que, mesmo cientes da lei, ignoram-na deliberadamente. Pior: não têm medo das consequências.
A pergunta é inevitável: de que serve uma medida protetiva se o Estado não garante sua eficácia? Quantas mulheres precisarão morrer para que a Justiça, a polícia e os governos levem a sério a gravidade da violência doméstica? Não basta decretar ordens; é preciso fiscalizar, monitorar e punir com rigor. Caso contrário, a legislação se torna um papel sem valor, um alvará de impunidade para quem insiste em dominar suas vítimas pela força.
Este episódio é simbólico e devastador: um advogado, conhecedor da lei, escolhe violá-la, colocando em risco a vida de sua ex-companheira e traumatizando os próprios filhos. Se até aqueles que deveriam respeitar e compreender os limites da lei se sentem à vontade para ultrapassá-los, o que esperar de outros agressores?
O Piauí, infelizmente, tornou-se palco recorrente de histórias assim. E cada nova manchete reforça a sensação de que a vida de mulheres ainda vale pouco diante da omissão das instituições. A sociedade precisa refletir: não se trata apenas de mais um crime na página policial. É um retrato cruel da falência das medidas de proteção e da naturalização da violência contra a mulher.
Enquanto o Estado seguir impotente, mulheres continuarão reféns de seus algozes. Hoje foi impedido um feminicídio. Amanhã, pode ser que não haja ninguém para segurar a faca.
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