
O acidente sofrido pelo deputado estadual Tiago Vasconcelos, na madrugada desta segunda-feira (1º), ao colidir com dois bois soltos na BR-343, em Campo Maior, não pode ser tratado como um simples susto. O episódio escancara um problema antigo, grave e rotineiro que há anos coloca em risco a vida de motoristas e passageiros que circulam pelas estradas piauienses. Animais soltos em rodovias são uma ameaça constante, mas o mais assustador não são apenas os acidentes em si, e sim o descaso das autoridades diante de uma tragédia anunciada.
A responsabilidade é compartilhada: município, Estado e União falham sistematicamente em garantir segurança nas rodovias. A BR-343, por onde trafegam diariamente milhares de pessoas, já foi palco de acidentes fatais envolvendo bois, cavalos e outros animais. Ainda assim, medidas efetivas nunca são adotadas, e a população segue exposta ao risco de perder a vida a qualquer momento. A cada colisão, famílias são dilaceradas, e o poder público se limita a notas de pesar e promessas vagas de fiscalização.
É preciso deixar claro: o proprietário rural que deixa um animal solto em estrada assume, sim, o risco de matar alguém. Não se trata apenas de responsabilização civil, com indenizações ou multas, mas de responsabilidade criminal. Em caso de morte, a conduta pode configurar homicídio doloso, já que o perigo é previsível e evitável. Mas, no Piauí, essa discussão ainda é tratada com complacência, como se vidas valessem menos do que bois ou cavalos que circulam livremente pelas pistas.
O acidente com o deputado poderia ter terminado em tragédia, mas ele saiu praticamente ileso. No entanto, a grande maioria das vítimas não tem a mesma sorte. São motoristas de moto, carros pequenos, famílias inteiras que trafegam à noite e acabam encontrando a morte em colisões inevitáveis. O episódio deveria servir de ponto de virada: o próprio parlamentar, agora vítima dessa realidade, tem a oportunidade de propor leis mais duras contra proprietários negligentes. A bancada federal do Piauí, igualmente omissa, precisa encampar essa causa e pressionar por mudanças.
A verdade é que o problema não é novo. Quantas cruzes ainda terão de ser fincadas às margens das rodovias para que as autoridades adotem medidas sérias e permanentes? A Operação Porteira Fechada, tão mencionada, não passa de uma ação pontual e ineficaz diante da dimensão do problema. O que está em jogo é a vida de quem transita pelas estradas do Piauí e do Brasil. Se não houver coragem política para aplicar a lei com rigor, continuaremos assistindo a mortes evitáveis, resultado direto da irresponsabilidade de uns e da omissão de outros.
No fim das contas, a pergunta que ecoa é dura e incômoda: no Piauí, a vida humana vale menos do que um boi solto na pista?
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