
O que já não é novidade no Piauí — a atuação de facções criminosas que prendem, julgam, condenam e executam desafetos em “tribunais do crime” — ganha contornos ainda mais sombrios. Agora, o que poucos sabem, é que menores de idade estão sendo usados como instrumentos de guerra nesse submundo. Eles assumem o papel mais cruel: puxar o gatilho contra rivais marcados para morrer.
Há relatos quem menores mataram e esquartejaram o corpo de um homem adulto. Quem não lembra dos dois homens decapitados no Angelim? Um crime bárbaro que chocou Teresina. O menor a matou e decapitou os parceiros, por contra da divisão de um produto de roubo. Jogou as cabeças nas águas do Rio Parnaíba. Uma cabeça foi encontrada no Troca-Troca e outra em David Caldas.
O caso mais recente expôs essa realidade. Dois adolescentes foram apreendidos durante a realização de um “tribunal do crime” no Conjunto Leonel Brizola, zona Norte de Teresina. Ambos confessaram envolvimento no assassinato de David Ferreira de Sousa, de 17 anos, ocorrido em junho, e também na participação do assalto contra um colecionador, atirador e caçador (CAC), de onde foram roubadas armas de grosso calibre.
Segundo o tenente-coronel Alves, comandante do Batalhão Especial de Policiamento do Interior (BEPI), a dupla estava a serviço da facção “Ponte dos 40” e tinha como missão executar um rival ligado ao PCC. “Eles confessaram que realmente a motivação é a rivalidade entre facções. Os adolescentes são usados porque, na lógica criminosa, são peças descartáveis”, afirmou o oficial.
A apreensão revelou ainda um arsenal: arma de fogo, munições, entorpecentes, além de dinheiro e celulares. O episódio confirma uma prática já identificada pela inteligência policial: facções preferem recrutar adolescentes porque acreditam que a legislação mais branda do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) lhes garante impunidade.
O fenômeno levanta questões inquietantes: o que leva menores de 15, 16 anos a entrarem tão cedo nesse universo? A ausência de políticas públicas, a pobreza nas periferias, a falta de alternativas e a atração pelo “status” dentro da facção compõem um terreno fértil para o aliciamento.
Enquanto isso, a capital piauiense testemunha a consolidação de um sistema paralelo de justiça nas mãos do crime organizado — e adolescentes, sem futuro e sem perspectiva, viram executores de sentenças de morte.
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