
Catarina Rosa Pereira de Jesus, a Catarina Mina chegou ao Brasil como escrava vinda da Costa da Mina (atual Golfo da Guiné). Ela tinha o empreendedorismo no sangue e vendia quitutes na ladeira da Rua da Calçada - o “Canto do Tonico” - consolidando sua fama por vender peixes e farinha muito apreciados. Através do trabalho duro e, segundo relatos, de favores concedidos por comerciantes portugueses abastados, conseguiu juntar dinheiro suficiente para conquistar sua liberdade.
Liberada, ela empreendeu, acumulou riqueza, virou comerciante e se tornou senhora de escravos - muitos deles libertados posteriormente. Era uma força da economia informal, símbolo vivo de ascensão social em uma sociedade marcada pela opressão. A historiadora Iraneide Soares destaca que, apesar de contraditória a ação de escravizar, Catarina garantiu dignidade a alguns que estavam em condição degradante.
O Beco Catarina Mina, antes chamado de Ladeira da Calçada (e oficialmente renomeado Rua Djalma Dutra em 1930), hoje é um dos raros logradouros do Centro Histórico que homenageiam diretamente uma mulher negra.
A escadaria de 35 degraus em pedra lioz, datada do século XVII, liga a Avenida Pedro II à Travessa da Alfândega, serpenteando ao lado dos antigos muros da Câmara Municipal. Suas pedras luxuosas eram usadas em igrejas e palácios de Portugal - símbolo da antiga prosperidade do Maranhão colonial.
Catarina Mina legou, em 1887, propriedades e liberdade para ex-escravizados e figuras influentes da sociedade maranhense. Seu testamento revelava uma rede de solidariedade incomum em sua época, distribuindo imóveis e emancipando escravos - inclusive sua mãe. Documentos preservados no Arquivo do Tribunal de Justiça do Maranhão revelam essa generosidade rara entre os ricos da época.
Ela viveu entre os extremos: escravizada, depois alforriada; acumulou seus bens com trabalho, mas também sustentou um séquito de escravas decorosamente vestidas. Seus seguidores andavam de rendas e joias, embora descalças - um símbolo de status invisível em um contexto de desigualdade racial.
Ainda assim, sua trajetória tem sido apagada ou romantizada. A historiografia brasileira celebra pouco a ação e resiliência de mulheres como Catarina - silenciadas por gerações por estarem fora dos livros oficiais, ainda que tenham sido protagonistas da própria liberdade.
Ela revela que o protagonismo negro sempre existiu - mesmo em sociedade que tentou negá-lo.
O Beco que leva seu nome é patrimônio vivo, local de cultura, comércio, museu e resistência urbana.
Sua rotina nas ruas ecoa nos sons de tambor, nas barracas de artesanato, nos restaurantes que usam seu nome como bandeira ‒ lembrando que memória se constrói com comida, arte e relatos orais.
Você já passou por ali todos os dias e nem sabia quem era Catarina Mina? Passou pelo beco, tomou um café, andou pelas escadas... mas ignorou quem abriu caminho com dignidade.
É hora de olhar para esse logradouro como um monumento à liberdade conquistada contra todas as correntes. E compartilhar: o Maranhão precisa lembrar. Comenta se você já viu o beco, marca quem ainda precisa conhecer essa mulher que virou símbolo de resistência.
Confira esse vídeo do canal: Eu amo o Maranhão.
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