
Na manhã de sábado (26), um crime brutal rasgou o sossego do povoado Samambaia, em Picos (PI), e acendeu o estopim da revolta popular. José Josiel Feitosa, de apenas 27 anos, foi executado a tiros por um homem de 59 anos, identificado como A.S.R. O pai da vítima, João José Feitosa, também foi baleado e levado em estado grave ao hospital.
Segundo moradores, o acusado conhecia as vítimas. Mais que isso: havia ali rancores antigos, um histórico de conflitos mal resolvidos — e, aparentemente, nenhuma mediação institucional eficaz. O desfecho foi o pior possível: tiros disparados a queima-roupa, sangue derramado diante de testemunhas e um silêncio aterrador que, horas depois, foi substituído pelas chamas da revolta.
No início da tarde, a paciência já havia sido engolida pelo luto e pela raiva. A casa do acusado — localizada às margens da BR-407 — foi incendiada por populares enfurecidos. Era mais que vandalismo: foi uma resposta visceral de uma população que não acredita mais na justiça do Estado. Nenhuma prisão foi registrada pelo incêndio. Nenhuma palavra de conciliação veio das autoridades.
As labaredas, nesse caso, falam mais alto que qualquer despacho da delegacia. O povo mandou o recado: "Se o sistema não pune, nós punimos."
Não se trata apenas de um homicídio. É o retrato de um ciclo de violência crônico: conflitos pessoais ignorados até se tornarem fatais. E quando a violência explode, ela não atinge só os envolvidos diretos. Ela consome o que resta de fé na justiça, no poder público, nas instituições.
A pergunta que ecoa é dura: o crime poderia ter sido evitado? E mais: quem responde pelo caos quando a população decide fazer justiça com as próprias mãos?
José Josiel Feitosa, 27 anos, assassinado com tiros no peito.
João Feitosa, seu pai, baleado e internado.
A.S.R., 59 anos, acusado de ambos os disparos, preso ainda pela manhã.
A comunidade, que não suportou assistir calada — e reagiu como pôde.
Testemunhas apontam que o crime foi resultado de uma briga antiga. Nada passional, nada repentino. Algo fermentado ao longo do tempo, sob o nariz das autoridades, até o momento em que o barril de pólvora estourou.
A Polícia Civil confirmou que o suspeito está preso e que irá investigar tanto os homicídios quanto o incêndio à residência. Mas o estrago já está feito. A sensação é de que a polícia - mais uma vez - chegou depois, correndo atrás do prejuízo.
A pergunta que incomoda: por que só agem depois que há cadáveres e fogo?
Hoje, o povoado Samambaia não é o mesmo. As cinzas da casa incendiada são o símbolo de algo maior: a falência do diálogo, a falência da segurança pública, a falência da mediação. O povo está em luto - mas também em alerta.
E não se trata de justificar a ação popular. Incendiar a casa de um acusado é crime. Mas é também sintoma de uma sociedade exausta, encurralada, desacreditada. Quando o povo começa a resolver as coisas por conta própria, é sinal de que o Estado falhou. E falhou feio.Um país que acostumou-se a enterrar seus filhos
Não foi o primeiro jovem assassinado de forma brutal no interior do Piauí. E, se nada mudar, não será o último. Quantos casos semelhantes ainda vão acontecer até que a justiça seja mais rápida que o revólver? Até quando a população vai se ajoelhar diante da omissão dos que deveriam protegê-la?
O caso de Picos é emblemático: um assassino armado, um pai baleado, um filho morto, uma casa em chamas. E no meio disso tudo, uma sociedade partida entre o medo, a raiva e a impotência.
Em tempos normais, a justiça não pode ser feita com gasolina e fósforo. Mas quando a justiça oficial não chega, o povo acende seu próprio fogo. É uma faísca perigosa, porque em nome da dor se justifica o injustificável. Mas a verdadeira pergunta é: quem deixou essa dor crescer até virar incêndio?
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