
Mais uma vez, a corrupção no serviço público dá as caras de forma descarada, expondo a fragilidade das instituições e a falta de compromisso de alguns servidores com a legalidade e o interesse coletivo. A prisão de um ex-servidor da Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (Strans) de Teresina, nesta sexta-feira (25), é um retrato claro de como o poder pode ser manipulado para favorecer interesses pessoais em detrimento da sociedade.
Segundo as investigações da Polícia Civil do Piauí, o ex-servidor se apresentou à delegacia acompanhado de um advogado após ser apontado como o articulador de um esquema de exclusão indevida de multas de trânsito no sistema da Strans. O que isso revela? Que dentro de um órgão responsável por fiscalizar, organizar e promover a segurança no trânsito, havia quem atuasse exatamente no sentido oposto: beneficiando motoristas infratores e causando um prejuízo estimado em mais de R$ 503 mil aos cofres públicos.
Entre fevereiro e junho de 2024, ao menos 2.215 multas foram apagadas ilegalmente, além de 12.393 pontos retirados das carteiras de habilitação dos condutores favorecidos. A fraude não apenas incentivou a impunidade, como também comprometeu a credibilidade da Strans e colocou em risco a segurança no trânsito da capital.
Pior: o caso não se resume à ação isolada de um servidor. A Operação Reset, deflagrada pelo Departamento de Combate à Corrupção (Deccor), já identificou outros envolvidos, como o ex-superintendente da Strans, um ex-gerente de trânsito e outro servidor terceirizado. Enquanto o último foi preso, os dois primeiros devem cumprir medidas cautelares com tornozeleira eletrônica. Mais nomes devem surgir, incluindo, possivelmente, agentes políticos e vereadores de Teresina — o que evidencia um esquema que pode ter ramificações mais profundas dentro do poder público.
É inaceitável que um órgão criado para garantir a ordem e aplicar a lei no trânsito se transforme em ferramenta para a ilegalidade. Isso escancara um problema estrutural: a falta de fiscalização contínua, a fragilidade nos sistemas de controle e, acima de tudo, a ausência de compromisso ético por parte de quem deveria dar exemplo.
A população, que já sofre com um trânsito caótico, com o sucateamento dos transportes públicos e com multas muitas vezes aplicadas de forma polêmica, agora vê que enquanto cumpre regras, outros driblam o sistema com a conivência de quem deveria zelar pelo cumprimento da lei.
É urgente que as investigações avancem, que todos os responsáveis sejam punidos de forma exemplar e que medidas reais de transparência e controle sejam implantadas. Afinal, a corrupção não é apenas um ato criminoso: é uma violência silenciosa contra cada cidadão honesto que paga seus impostos e cumpre seu dever.
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