
O Piauí registrou um avanço impressionante no combate ao tráfico de drogas em 2024: um aumento de mais de 561% nas apreensões de maconha, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. Um salto de 366,25 kg, em 2023, para 2.422,16 kg em apenas um ano. Em meio a uma queda nas apreensões em outros estados do Nordeste, como Paraíba, Pernambuco e Bahia, o resultado coloca o Piauí sob os holofotes de uma política de segurança que, ao menos em números, mostra força.
Mas essa conquista, embora importante, nos leva a uma reflexão maior: apreender mais significa, de fato, vencer o tráfico?
As drogas seguem sendo o combustível de uma cadeia de violência que fragiliza comunidades, destrói famílias e corrompe jovens, especialmente nas periferias urbanas. Aumentar as apreensões é um passo necessário — e as forças de segurança do estado merecem reconhecimento pelo reforço das operações, uso de inteligência policial e ações em áreas estratégicas. No entanto, o enfrentamento ao tráfico vai muito além do que se pode pesar em balanças nas delegacias.
É preciso questionar: onde estamos falhando, como sociedade, quando a criminalidade relacionada às drogas continua oferecendo, para muitos jovens, uma ilusão de renda, poder e pertencimento? A resposta, infelizmente, está nos mesmos lugares de sempre: falta de acesso à educação de qualidade, oportunidades de emprego, projetos sociais permanentes e espaços seguros de convivência.
O Pacto pela Ordem, iniciativa estadual que tem intensificado o combate ao tráfico, mostra que é possível agir com seriedade e foco. Mas se queremos resultados duradouros, precisamos de um pacto mais profundo: um pacto pela dignidade, pela prevenção e pela vida.
Enquanto comemoramos as toneladas de maconha fora de circulação, não podemos ignorar o que permanece: as comunidades dominadas pelo medo, os adolescentes aliciados por facções e a ausência do Estado onde ele mais deveria estar presente — nas escolas, nos centros de juventude, nos postos de saúde.
Repressão sem inclusão gera um ciclo infinito de prisões e mortes. A guerra contra as drogas, quando travada apenas com armas e algemas, se torna uma guerra contra os pobres. E essa é uma guerra que nunca terá fim.
O Piauí mostrou que é capaz de agir. Agora, precisa mostrar que também é capaz de transformar. Que os dados de 2025 sejam não apenas de apreensões maiores, mas de violência menor, oportunidades reais e juventudes salvas.
Porque vencer o tráfico não é só tirar a droga da rua — é também tirar o desespero da vida de quem, muitas vezes, só teve o crime como opção.
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