
O Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que já recebeu óperas, balés e oradores históricos, hoje abre suas portas para um espetáculo diferente: o último adeus à cantora Preta Gil, 50 anos, morta no último domingo (20/7), vítima de um câncer colorretal. E como tudo que envolvia Preta, a cerimônia é pública, emocionante e simbólica.
Ela mesma havia dito em vida: queria ser velada ali. Foi atendida. O local, com sua pompa e tradição, cedeu lugar à dor coletiva, mas também a uma celebração da vida, da música e da coragem.
Logo cedo, o público formou fila. Famílias, fãs com cartazes, flores e lágrimas ocuparam a Cinelândia. Cantaram “Sinais de Fogo”, levantaram cartazes com frases como “Liberdade às mulheres pretas” e transformaram o velório em um tributo vivo à cantora que nunca se esquivou das lutas.
Pelo salão nobre do Theatro, um corredor foi montado para permitir o fluxo constante de admiradores. Alguns se ajoelharam diante do caixão. Outros apenas murmuraram “obrigado”. Muitos choraram.
Entre os primeiros a chegar estava o filho da cantora, Francisco Gil, acompanhado da namorada, Alane. Sozinho diante do corpo da mãe, protagonizou uma das cenas mais tocantes do velório.
Flor Gil, sobrinha da artista, também se despediu emocionada. A filha de Bela Gil foi uma das acompanhantes mais presentes durante o tratamento nos EUA. No fim de junho, as duas apareciam juntas em um vídeo torcendo pelo Flamengo. Agora, restou o silêncio.
Thiaguinho chorou. Alice Wegmann, também. Artistas como Malu Mader, Claudia Abreu, Marcelo Serrado, Péricles, Xanddy e Carla Perez, além da primeira-dama Janja da Silva, que chegou com a ministra Margareth Menezes, marcaram presença. O presidente Lula não compareceu, mas enviou uma coroa de flores.
Preta Gil não era apenas uma cantora. Era uma militante. E seu velório refletiu isso. Ao contrário de cerimônias fechadas, elitistas e impessoais, a despedida da filha de Gilberto Gil e Sandra Gadelha foi um manifesto: de afeto, de liberdade, de resistência feminina e preta.
“Ela viveu sem filtro. E quis morrer sem véus”, disse uma fã ao sair do Theatro. Outra completou: “Ela nos ensinou que o corpo da mulher, a voz da mulher e a dor da mulher preta merecem espaço, escuta e respeito. Até o fim.”
A cantora revelou o diagnóstico de câncer colorretal em janeiro de 2023. Enfrentou quimioterapia, cirurgias e recaídas. Em dezembro daquele ano, anunciou o fim do tratamento. Mas a metástase reapareceu em agosto de 2024. Em 2025, partiu para os Estados Unidos em busca de um novo tratamento experimental. Lutou até o último fôlego.
Durante todo o processo, compartilhou publicamente sua jornada com a doença — uma escolha que, para muitos, rompeu tabus sobre o sofrimento, a dignidade e o fim da vida.
Preta Gil deixa um filho, uma neta, uma família de artistas e milhões de fãs. Mas, acima de tudo, deixa uma marca indelével: a de quem nunca quis agradar a todos - e por isso mesmo, tocou muitos.
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