
Ser jornalista no Brasil já é arriscado. Ser repórter policial, então, é estar com a vida na linha de tiro.
A Organização das Nações Unidas já alertou: o jornalismo está entre as profissões mais perigosas do mundo. Mas no Brasil, essa ameaça é potencializada para quem cobre, na linha de frente, os bastidores da violência e da criminalidade. No Piauí, esse cenário ficou ainda mais evidente nesta quinta-feira (24), quando o repórter da TV Meio, Denis Constantino, foi agredido ao vivo por uma mulher grávida, presa com 180 kg de cocaína.
O episódio ocorreu durante a Operação Boca Fechada, deflagrada pelo Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (DENARC) em Teresina. A ação mirava quadrilhas de tráfico e cumpriu cerca de 30 mandados. Em um sítio na zona rural Sudeste da capital, a polícia encontrou a droga enterrada - e ali também estava a suspeita, de apenas 32 anos, e grávida de quatro meses.
“Meu pai é rico, bando de otário!”
A postura da detida em nada lembra o suposto arrependimento que muitos criminosos demonstram diante das câmeras. Pelo contrário: verborrágica, debochada e agressiva, ela insultou o repórter, fez gestos obscenos para a equipe e afirmou: “Essa droga não é daqui não. Que porr de envolvimento o quê. Meu pai tem dinheiro. Bando de otário.”
A cena escancarou a arrogância de quem parece acreditar na impunidade - mesmo diante de 180 quilos de cocaína. E quando o repórter se aproximou para buscar a versão da acusada, foi surpreendido com um soco no rosto, que causou sangramento. Tudo isso na frente da polícia e das câmeras.
Jornalismo como alvo: o Estado precisa reagir
O delegado Samuel Silveira, que coordenava a operação, prontamente convidou o jornalista a registrar boletim de ocorrência. “Ela já vai ser autuada por tráfico de drogas, e agora também responderá por agressão”, declarou.
A atitude do delegado foi firme e correta. Mas o episódio exige mais: proteção real à imprensa que atua em áreas de risco e respeito ao trabalho de profissionais que, mesmo sob ameaça, insistem em mostrar a verdade à sociedade.
O que Denis Constantino sofreu não é um caso isolado - é o retrato da crescente intolerância de criminosos contra o jornalismo, agravada por um clima de impunidade e descrédito das instituições.
O nome da operação era “Boca Fechada”. Mas foi a imprensa quem levou o tapa para que o crime continuasse calado.
Se uma mulher grávida, presa com drogas, se sente à vontade para bater em um repórter diante de policiais, o que impede o tráfico de calar jornalistas nos bastidores, sem testemunhas, e sem câmeras ligadas?
Não basta apurar, prender e divulgar. O Estado precisa proteger. O jornalismo não pode continuar sendo alvo - nem físico, nem político.
O que está em risco não é apenas a integridade de um repórter, mas o direito de toda a sociedade à informação. Está em risco acima de tudo, a Democracia. Afinal, não há democracia sem um imprensa livre a atuante.





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