
O que parecia um “deslize pontual” cometido por um servidor terceirizado revelou-se um esquema bem mais profundo e estruturado dentro da Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (Strans), em Teresina. A investigação da Polícia Civil, batizada de Operação Reset, deixou claro: havia comando, execução, beneficiários e uma lógica bem definida, com ordens que partiam do topo da hierarquia para sustentar uma engrenagem de corrupção.
A determinação judicial para que Bruno Pessoa - sobrinho do ex-prefeito Dr. Pessoa e ex-superintendente da Strans - e o ex-gerente de Trânsito, Daniel Lima Araújo, usem tornozeleiras eletrônicas enquanto durarem as investigações, simboliza o peso político do escândalo. Ambos são apontados como os principais articuladores do esquema, que fraudou mais de 2 mil multas e causou prejuízo estimado em meio milhão de reais aos cofres públicos.
Segundo a Polícia Civil, o comando partia de cima. Bruno Pessoa, no cargo mais alto do órgão, autorizava as exclusões sem qualquer formalidade. A ordem descia em forma de bilhetes manuscritos com placas de veículos a serem “perdoados” e era executada por terceirizados e chefes comissionados, inclusive fora do expediente e usando senhas administrativas para burlar o sistema oficial. Daniel Araújo, gerente à época, também se beneficiava diretamente e participava ativamente das manobras ilegais.
A rede operava de maneira improvisada, mas com objetivos claros: atender demandas políticas, beneficiar empresas, particulares e até autoridades. Mais de 400 multas foram apagadas fora do expediente, reforçando o caráter deliberado das ações. Os executores, terceirizados ou comissionados, recebiam pequenas propinas - “gorjetas” em dinheiro vivo, segundo a investigação - para deletar as infrações.
A Justiça impôs as tornozeleiras para garantir que Bruno Pessoa e Daniel Araújo não interfiram nas investigações e para monitorar deslocamentos, já que as condutas deles evidenciam risco de destruição de provas e coação de testemunhas. Ambos foram alvos diretos da Operação Reset, junto com Lucas da Rocha Lima e dois terceirizados que atuavam no sistema. Um servidor citado inclusive está foragido.
A estrutura revelada desmonta a versão inicial de um “caso isolado”. Trata-se de um esquema orgânico, com ordens que vinham de cima e uma lógica quase institucionalizada. Beneficiários ainda estão sendo identificados e poderão responder criminalmente.
O caso lança uma sombra sobre a gestão passada da Prefeitura de Teresina e reforça a necessidade urgente de blindar órgãos públicos contra aparelhamento político e corrupção miúda travestida de “despacho de gabinete”. A Superintendência de Trânsito, que deveria zelar pelo cumprimento da lei, tornou-se um balcão de favores com senha e carimbo oficial.
A pergunta que fica: quantos outros órgãos ainda operam na mesma lógica de bilhetes e privilégios para os “amigos do rei”?
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