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Triângulos amorosos, violência e masculinidade tóxica: até quando o ciúme vai justificar o assassinato?

É urgente que a sociedade pare de romantizar ou suavizar crimes com a expressão “crime passional”. Quando dizemos que uma pessoa matou por amor ou por ciúmes, estamos, ainda que inconscientemente, atribuindo certa compreensão ao agressor.

22/07/2025 às 13h37
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Polícia Civil
Polícia Civil

O assassinato de Alef Oliveira de Lima, de apenas 23 anos, ocorrido há um mês em Teresina, é mais um retrato cruel de como o ciúme, o sentimento de posse e a masculinidade tóxica continuam matando jovens no Brasil. O principal suspeito, Breno Gomes, se apresentou à polícia nesta segunda-feira (21), após dias foragido. Ele é acusado de atirar contra Alef e, logo após o crime, incendiar a motocicleta da vítima. O motivo? Um triângulo amoroso.

Sim, em pleno 2025, ainda nos deparamos com casos em que a disputa por uma mulher serve de estopim para um assassinato brutal. O delegado responsável pela investigação, Bruno Ursulino, foi claro ao afirmar que o crime foi passional: os dois homens se relacionavam com a mesma mulher. A partir daí, instaurou-se o conflito. Mas o que precisa ser dito com toda firmeza é que nada — absolutamente nada — justifica tirar a vida de alguém por ciúmes, rejeição ou orgulho ferido.

É urgente que a sociedade pare de romantizar ou suavizar crimes com a expressão “crime passional”. Quando dizemos que uma pessoa matou por amor ou por ciúmes, estamos, ainda que inconscientemente, atribuindo certa compreensão ao agressor. Como se o sentimento de frustração lhe desse algum direito sobre a vida do outro.

A masculinidade tóxica — esse modelo de homem que não aceita ser contrariado, que acredita possuir a mulher com quem se relaciona, que vê o rival como inimigo e a mulher como troféu — precisa ser desmontada desde cedo, nas escolas, nas famílias, nos grupos de amigos. A educação emocional ainda é negligenciada e o resultado está nas estatísticas de feminicídios e crimes de violência interpessoal.

Outro ponto grave deste caso é a recorrência criminal do suspeito. Além do homicídio, Breno já era investigado por roubos e envolvimento com celulares roubados, que inclusive foram encontrados com sua mãe e irmã. Como pode alguém com esse histórico circular livremente e ainda cometer um assassinato diante da casa da vítima?

A resposta é complexa, mas passa por falhas no sistema penal, por morosidade nas investigações e, principalmente, por uma cultura que ainda valoriza o confronto, a vingança e a virilidade acima da empatia e da resolução pacífica de conflitos.

A mulher envolvida no triângulo amoroso já foi ouvida e deverá prestar novo depoimento. Aqui também é preciso cautela: ela não é responsável pela rivalidade entre os dois homens, e qualquer tentativa de culpabilizá-la é mais uma forma de machismo estrutural. O foco precisa permanecer em quem cometeu o crime e nos mecanismos sociais que permitiram que essa tragédia acontecesse.

Alef tinha 23 anos. Tinha uma vida inteira pela frente. Morreu por estar envolvido, como tantos outros jovens, em uma teia de violência que se disfarça de paixão. E Breno, ao que tudo indica, usava da força e da criminalidade como formas de exercer poder — sobre os outros, sobre a mulher, sobre a narrativa.

A sociedade precisa reagir. Não com mais violência, mas com mais consciência. Enquanto o ciúme continuar sendo romantizado, enquanto a masculinidade tóxica não for enfrentada com seriedade e enquanto a justiça não agir com firmeza, histórias como a de Alef continuarão se repetindo. E vidas continuarão sendo perdidas por razões absurdamente evitáveis.

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