
Preta Gil nunca foi apenas a filha de Gilberto Gil. Ela foi, e continuará sendo, a filha legítima da liberdade - liberdade de ser quem se é, de viver sem pedir licença, de cantar sem se envergonhar e de chorar sem medo do julgamento. Quando neste domingo (20) o Brasil recebeu a triste notícia de sua morte aos 50 anos, em decorrência do câncer, não perdemos apenas uma artista. Perdemos um símbolo de força, de autenticidade e, acima de tudo, de uma vontade inquebrantável de viver.
Preta Maria Gadelha Gil Moreira nasceu em 1974 e parecia ter herdado não só o talento do pai, mas também sua inquietação tropicalista. Desde a infância no Rio de Janeiro, já experimentava o sabor agridoce de viver à sombra de um ícone da música brasileira, mas fez dessa sombra um trampolim para seu próprio sol. Cresceu entre artistas e intelectuais, descobriu-se bissexual, rompeu tabus com naturalidade, defendeu minorias com a paixão de quem sabe o que é ser alvo de preconceito.
Em 2003, lançou seu primeiro álbum, Prêt-à-porter, em plena era da magreza como tirania estética - e o fez nua na capa, sem pedir desculpas. Tornou-se imediatamente um símbolo de autoestima para milhares de mulheres que, como ela, não se viam representadas na mídia. De lá pra cá, foram discos, blocos carnavalescos, programas de TV, novelas, shows e o sucesso retumbante do Bloco da Preta, que arrastava multidões no carnaval do Rio e, depois, de São Paulo.
A vida de Preta Gil, porém, nunca foi um conto de fadas. Em 2020, a covid-19 já havia testado sua resiliência. Mas foi em 2023, com o diagnóstico de um câncer no intestino, que o Brasil inteiro pôde testemunhar a grandeza de sua alma. Ela não apenas contou ao público, como dividiu cada etapa do tratamento, cada recaída e cada vitória parcial. Ela nunca se escondeu - ao contrário, transformou sua luta em uma bandeira pela dignidade de todos os que enfrentam a doença.
"Sei que fiz a escolha certa em dividir com as pessoas as minhas vulnerabilidades e meus sofrimentos. Mas com a cabeça erguida, como sempre foi, desde o começo", disse ao vencer o prêmio Faz Diferença, do O Globo. E assim foi até o fim: dividindo, lutando, vivendo.
Em agosto de 2024, comemorou seus 50 anos com uma festa para 700 pessoas. Na mesma época, lançou sua autobiografia, Preta Gil: os primeiros 50, em que expôs sem pudores não só a doença, mas também a traição do então marido durante o tratamento. Não era apenas um livro — era mais uma prova de que ela nunca se calaria diante de nenhuma dor.
Mãe de Francisco, fruto do primeiro casamento com o ator Otávio Muller, Preta viveu outras relações amorosas, todas intensas, todas vividas sem medo. Defensora ferrenha da comunidade LGBTQIA+, ela fez questão de lembrar sempre que amar não tem gênero e que preconceito não tem desculpa. E era nessa coerência que residia boa parte de seu charme.
Nos últimos meses, mesmo debilitada, foi aos Estados Unidos em busca de tratamentos experimentais. Não por desespero, mas por amor à vida. Ela queria continuar viva para cantar, para rir, para gritar no carnaval. Porque se há algo que Preta Gil nos ensinou é que viver não é apenas respirar - é ocupar cada centímetro do palco que se tem direito.
Preta Gil foi cantora, atriz, empresária, apresentadora, mãe, filha, amiga e ídolo. Mas acima de tudo, foi humana - dolorosamente, lindamente humana. No palco ou no hospital, no carnaval ou no tratamento, ela nunca perdeu sua maior marca: a honestidade brutal e bem-humorada de ser quem sempre foi.
Aos que ficam, resta a saudade. Mas também a lição: seja qual for a batalha, encare-a com um sorriso no rosto e um brilho nos olhos. Preta Gil não viveu pouco. Ela viveu intensamente.
Viva Preta Gil.
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