
Teresina, mais uma vez, amanheceu sob o signo do medo. Na madrugada desta quinta-feira (17), moradores do Parque São Jorge, Zona Sul da capital, viveram momentos de pânico quando a casa de um traficante conhecido como “Padeiro”, um dos chefes do tráfico local, foi crivada por ao menos 50 tiros. Nenhum morador ficou ferido, mas o recado foi claro: as facções criminosas já não apenas ditam as regras da periferia, como agora escancaram a guerra pelo controle territorial, usando o terror para marcar posição.
Segundo a Polícia Civil, o ataque foi executado por dois homens identificados como “Pinto” e “Madrugadão”, supostamente membros da facção Turma do 007. O objetivo do atentado era enfraquecer a influência do Primeiro Comando da Capital (PCC) na Vila do Padeiro - nome pelo qual a área é conhecida - e expandir a presença do 007 para além das adjacências, onde o Bonde dos 40 já rivaliza com o PCC. O bairro já havia recebido pichações com a sigla “007”, sinalizando a tentativa de ocupação.
O próprio “Padeiro”, segundo a polícia, é um nome de peso no tráfico em Teresina. Apontado como um dos principais líderes da facção PCC na cidade, ele comandaria a venda de drogas, coleta de dívidas e recrutamento de soldados no Parque São Jorge e entorno. A ficha corrida dele inclui acusações por tráfico, organização criminosa e porte ilegal de armas.
O traficante conhecido apenas como “Padeiro” ganhou esse apelido ainda jovem, quando ajudava o pai numa pequena padaria do bairro. De padeiro virou soldado do crime e, com a prisão dos chefes anteriores, ascendeu à liderança local do PCC na Zona Sul.
Na última grande operação do Denarc, em 18 de junho, a polícia quase o capturou: sua casa foi cercada e outros cinco suspeitos foram presos, incluindo a filha dele. Mas “Padeiro” escapou por uma rota clandestina nos fundos da casa, que leva a um grotão e depois às casas vizinhas. Câmeras espalhadas por ele na área ajudaram a monitorar os movimentos da polícia.
“Ele já vem sendo caçado há meses. É um dos maiores nomes do tráfico em Teresina hoje”, resume o delegado Samuel Silveira, diretor do Denarc.
Mais que um simples atentado, o ataque desta quinta simboliza o agravamento de um quadro já crítico. Em Teresina, a guerra entre PCC e Bonde dos 40 já havia elevado os índices de homicídios na periferia. Agora, com a ousadia da Turma do 007, surge um terceiro ator, disposto a tomar para si as rotas e pontos de venda.
A população é quem mais sofre: moradores do Parque São Jorge relatam que já não têm liberdade de circular à noite. “A gente não pode nem visitar um parente que mora duas ruas abaixo porque cada rua tem dono”, lamenta uma moradora que pediu para não ser identificada.
O crime organizado já se sente dono da cidade. E a ausência do Estado - não apenas da polícia, mas de políticas sociais e urbanas - abre cada vez mais espaço para que grupos criminosos se consolidem como “autoridades” nos bairros.
A investigação do atentado segue, mas sem prisões até o momento. A pergunta é: até quando a cidade vai suportar ser refém das facções Quantos ataques e quantas mortes ainda serão necessários para que as autoridades se movam para valer? Enquanto isso, os moradores continuam assistindo à guerra da janela de casa, torcendo para que a próxima rajada não seja para o lado deles.
O Parque São Jorge não é exceção. É um símbolo da Teresina que já não pertence aos teresinenses.
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