
O Piauí sangra. A cada semana, uma nova vítima engrossa as estatísticas da barbárie machista que insiste em transformar mulheres em números frios - e governos em cúmplices por omissão. A mais nova história que choca o Estado aconteceu neste domingo (13), em Beneditinos, a apenas 90 km da capital, Teresina: Sarah Denise, adolescente de apenas 15 anos, foi assassinada a tiros pelo ex-namorado. O suspeito, identificado como Fábio, tentou suicídio logo após o crime e segue hospitalizado.
De acordo com a Polícia Militar, Sarah estava em casa quando o ex-companheiro apareceu armado. Após atirar na jovem, ele também feriu outra pessoa que conversava com a vítima e, em seguida, fugiu para a casa dos pais, onde tentou tirar a própria vida. Sarah não resistiu. A adolescente agora é símbolo de uma estatística que cresce silenciosa no Piauí - e que poucos têm coragem de enfrentar de frente.
Segundo o Atlas da Violência 2024, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Piauí ocupa hoje a 3ª posição no ranking de feminicídios do Nordeste, atrás apenas de Alagoas e Maranhão. A taxa é de 2,8 assassinatos para cada 100 mil mulheres, acima da média nacional (1,9). Nos últimos cinco anos, o aumento percentual foi de 23%, enquanto a média nordestina cresceu 12%.
O dado mais alarmante: quase 70% das vítimas tinham menos de 30 anos. Mulheres jovens, muitas adolescentes, que encontraram na violência doméstica e no machismo letal um destino precoce. O caso de Beneditinos não é exceção - é regra.
Diante dessa epidemia silenciosa, a resposta do governo do Piauí tem sido tímida, insuficiente, burocrática. O Plano Estadual de Políticas para as Mulheres foi atualizado pela última vez em 2019, e poucas ações estruturantes saíram do papel. A prometida ampliação das Delegacias Especializadas da Mulher ficou no discurso: apenas cinco municípios contam com unidades dedicadas ao atendimento, para 224 cidades.
O Disque 180 e o aplicativo Salve Maria são, até hoje, as principais ferramentas divulgadas para vítimas denunciarem agressões - mas sofrem com falta de divulgação, lentidão no atendimento e ausência de articulação com abrigos seguros para acolhimento imediato. Em 2023, o governo estadual anunciou a criação de mais duas casas de acolhimento temporário para mulheres vítimas de violência; até hoje, nenhuma foi inaugurada.
O feminicídio não é um “crime passional”. É o resultado de uma sociedade que normaliza agressões, banaliza ameaças e trata mulheres como descartáveis. Mas também é resultado de governos omissos, incapazes de agir preventivamente, de punir agressores e de oferecer proteção real às vítimas.
Quando uma adolescente de 15 anos é assassinada a tiros pelo ex-namorado numa cidade pequena, diante de vizinhos, é sinal de que todas as barreiras institucionais falharam: a escola não preveniu, a polícia não afastou, a Justiça não puniu a tempo - e a sociedade não protegeu.
Enquanto o governo do Piauí não tirar do papel uma política séria de enfrentamento, a lista de nomes como o de Sarah vai continuar crescendo. Não basta inaugurar cartilhas e campanhas tímidas em datas simbólicas como o 8 de Março. É preciso enfrentar a cultura machista com políticas públicas robustas, orçamento consistente e coragem para admitir que falhamos como Estado e como sociedade.
O feminicídio é um crime evitável. Cada mulher assassinada é um atestado do fracasso coletivo - e da cumplicidade silenciosa de quem deveria garantir sua vida.
Que a morte de Sarah Denise, em Beneditinos, não seja só mais uma nota de rodapé nas estatísticas da violência. Que seja, ao menos, um chamado para que o Piauí olhe para si mesmo - e acorde, antes que mais uma menina seja calada para sempre.
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