
Muito já foi revelado pela ciência sobre os horrores da erupção do Monte Vesúvio, em 79 d.C., que sepultou Pompeia e cidades vizinhas sob toneladas de cinzas e lava. Décadas de esforços de arqueólogos e pesquisadores permitiram esclarecer muito sobre o cotidiano dos habitantes, suas casas, seus ofícios e até hábitos alimentares. Porém, mesmo após quase dois mil anos e sucessivas campanhas de escavações, Pompeia continua guardando segredos que desafiam a compreensão e alimentam o fascínio do mundo moderno.
Por que ainda há tanto sem resposta? Porque as próprias cinzas que preservaram a cidade também destruíram partes essenciais do registro humano. Documentos, tecidos, detalhes de identidades e relações familiares foram obliterados ou estão fragmentados demais para serem lidos pelos métodos tradicionais.
O método desenvolvido no século XIX por Giuseppe Fiorelli - ao injetar gesso líquido nos vazios deixados pelos corpos entre as cinzas endurecidas - permitiu “ressuscitar” as formas das vítimas com uma precisão dramática. Foram moldadas 104 figuras humanas em suas últimas posições, o que gerou suposições emocionantes e por vezes equivocadas.
Mas só recentemente a ciência genética pôde entrar em cena para contar histórias mais precisas. Pesquisadores sequenciaram DNA antigo de ossos ainda preservados dentro dos moldes e desmentiram algumas crenças históricas.
Acreditou-se que dois desses corpos eram mãe e filho montado no quadril, mas a análise genética mostrou que trata-se de um homem adulto não aparentado com um filho - Foto: Divulgação/Parque Arqueológico de Pompeia
Um exemplo emblemático é o par de corpos que se acreditava ser mãe e filha, ou duas irmãs, encontradas abraçadas. A análise mostrou que eram dois jovens adultos sem laços familiares diretos - um deles, inclusive, do sexo masculino. Outro caso famoso era o de uma mulher com uma criança no quadril, vista como mãe e filho: eram, na verdade, dois indivíduos sem parentesco.
Além dessas correções, a genética revelou que Pompeia era mais cosmopolita do que se supunha, com indícios de diversidade genética entre os habitantes que reflete o alcance e a pluralidade do Império Romano.
Ainda há muitas perguntas sem resposta. Quem eram exatamente essas vítimas - nomes, histórias, origens? Como a hierarquia social se refletia na forma como cada grupo morreu ou sobreviveu? Como a cidade se reorganizou nas horas e dias que antecederam o desastre?
As pesquisas em curso continuam usando imagens em alta resolução, mapeamento 3D, tomografia computadorizada e biologia molecular para extrair informações invisíveis a olho nu. Espera-se que, nos próximos anos, novas camadas da cidade e dos corpos sejam reveladas, ajudando a reconstituir não apenas a tragédia, mas também a riqueza cultural e social daquela Pompeia perdida no tempo.
O que a tragédia do Vesúvio nos lembra, afinal, é que por mais avançados que sejamos em tecnologia, a memória de uma civilização é sempre um trabalho inacabado - um enigma que desafia a cada geração de cientistas a cavar mais fundo, a literalmente remover cinzas para encontrar a verdade.
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