
Num Brasil em que a cultura tantas vezes é relegada ao rodapé do orçamento público, a Ópera da Serra da Capivara surge, mais uma vez, como um farol. E não apenas de arte: mas de resistência, de dignidade, de memória coletiva. Este ano, o festival chega à sua sexta edição sob a sombra da perda de sua maior inspiração - a arqueóloga Niède Guidon, falecida há apenas um mês. E mesmo assim, reafirma a convicção de que “o espetáculo não pode parar”. Porque parar seria ceder à omissão, ao apagamento, ao esquecimento.
O evento, idealizado por Sádia Castro e dirigido artisticamente por Felipe Guerra, é mais do que uma montagem ousada na pedra furada da Serra. É a materialização de uma escolha política: a de investir naquilo que nos humaniza e nos conecta às nossas raízes. Enquanto governos sucessivos fingem que o Piauí profundo não existe, a ópera devolve à Serra sua centralidade - e faz dela um palco para contar histórias universais com sotaque nordestino.
Este ano, a releitura de O Fantasma da Ópera ganha um tom quase profético: um fantasma ronda, de fato, a cultura brasileira - o fantasma do desmonte e do descaso. E a resposta, mais uma vez, vem do povo, das lideranças locais, da ousadia de transformar sítios arqueológicos em arenas de beleza e reflexão.
Não nos enganemos: eventos assim não são apenas festivais. São afirmações de que um povo existe e tem direito à arte, à memória, ao turismo sustentável e ao orgulho de si mesmo. E são, por isso mesmo, incômodos para quem prefere um povo domesticado, isolado, sem voz.
Os números mostram o impacto: o turismo quadruplicou, a economia local gira, a autoestima da comunidade se fortalece. Hotéis surgem, artistas aparecem, a Serra da Capivara deixa de ser só uma fotografia numa apostila de escola para virar destino turístico e cultural. Tudo isso fruto de uma visão que compreende que cultura é também investimento e transformação social - não apenas despesa.
Este ano, a homenagem à inesquecível Niède Guidon tem um sabor ainda mais pungente. A mulher que desenterrou nossa história mais remota do pó das cavernas agora se torna parte dela. Mas seu espírito segue soprando nas encostas da Serra, lembrando que nossa identidade não pode ser enterrada pela omissão.
Entre as atrações já confirmadas para a edição deste ano estão nomes de peso: Juliana Linhares; Raíssa Fayet, revelação da nova MPB, acompanhada por Diego Moraes; a cantora Céu, indicada ao Grammy Latino; o grupo Boi de Piranha, que une ritmos afro-caribenhos e brasileiros; e Mãeana, com uma obra profundamente inspirada pelo tropicalismo e pela força do feminino.
A pergunta incômoda é: até quando a cultura será sustentada por heróis e heroínas locais? Até quando o Estado se limitará a parcerias pontuais, ao invés de assumir sua obrigação perene com a arte e o patrimônio cultural?
Enquanto essas respostas não vêm, a ópera segue. Resiste. E nos lembra que quem tem memória, arte e coragem nunca será fantasma - nem espectador passivo da própria história.
Que venham os aplausos.
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