
O episódio escancara a relação promíscua entre o sindicalismo e o INSS, que já protagonizou o maior ataque aos aposentados da história recente - e continua cheirando a ilegalidade.
Milton Baptista de Souza, o conhecido Milton Cavalo, presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi), utilizou os recursos do sindicato para erguer uma mansão de 360 m², com piscina de 50 m² e 15 estábulos, localizada em Ibiúna (SP), no bairro Votorantim.
O timing é suspeito: a construção ocorreu entre maio de 2021 e maio de 2023, período em que o Sindnapi viu sua arrecadação disparar de R$ 41 milhões para R$ 149 milhões – um salto de mais de 260 %.
Para efeito de comparação, os repasses saltaram de R$ 23,2 milhões para R$ 149 milhões entre 2020 e 2023, o que representa um acréscimo de cerca de R$ 100 milhões em três anos .
Sem surpresa, a Operação Sem Desconto, da Polícia Federal, mira o sindicato. Investigações da CGU e do TCU apontam que 96 % dos integrantes nunca autorizaram o desconto associativo. A PF já listou o Sindnapi entre onze entidades do escândalo dos descontos não autorizados.
Em nota, Cavalo afirma que adquiriu o sítio em 2010 e que “todas as melhorias foram feitas com recursos próprios, fruto do trabalho pessoal de Milton Cavalo e de sua família, sem relação com a arrecadação do Sindnapi”. Detalhe curioso: o imóvel não consta em nome dele ou da esposa, mas sim de uma empresa de criação de equinos registrada em 2011.
Ele ainda diz que os estábulos são alugados - informação que, se verdadeira, caracteriza uma atividade econômica. Mas o condomínio de luxo, em plena expansão dos repasses, obriga o investidor a explicar melhor a origem dos recursos.
O Sindnapi é filiado à Força Sindical, onde o vice‑presidente é José Ferreira da Silva, o “Frei Chico” - irmão do presidente Lula. Desde 2021, o número de filiados passou de 170 mil para 420 mil, segundo dados do TCU, resultando em aumento de 100 milhões no faturamento da entidade.
A própria CGU constatou que em uma amostra de 26 associados, 20 disseram nunca terem autorizado o desconto.
A operação policial segue aberta. Mas resta a pergunta central: como construir uma mansão milionária com dinheiro de sindicato que lucra com descontos não autorizados de idosos do INSS?
Até agora, nenhuma explicação convincente, nenhum documento formal que mostre a origem “legal” dos recursos - apenas justificativas vagas sobre “investimentos pessoais”.
Se Milton construiu a mansão com renda lícita, que apresente provas. Se não conseguir, o que era luxo vira símbolo de conluio e enriquecimento ilícito.
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