
O que exatamente influencia Lokinho? E mais: quem são os influenciados?
É essa a pergunta que não quer calar quando vemos o influencer Pedro Lopes Lima Neto, o popular “Lokinho”, alternar com facilidade surreal entre os holofotes das redes sociais e as grades da polícia. Em um dia, é capa de site por sua participação em um reality alternativo - no outro, está prestando depoimento por um esquema de distribuição de drogas. E no dia seguinte? Está livre, leve, solto, gravando stories com a legenda "Liberdade cantou". É o resumo perfeito da confusão moral que virou parte da vida pública brasileira.
O episódio mais recente parece roteiro de tragicomédia: uma “Fazenda 3”, versão pirata e duvidosa de reality show, com direito a blogueiros ostentação, investigados por jogos de azar, e até foragidos da Justiça. Segundo Lokinho, não era apenas um evento de entretenimento, mas um ambiente onde cada participante receberia diariamente 50g de maconha tipo skank. Isso, segundo ele, prometido pelos próprios organizadores.
Pior: essa informação foi dita com a naturalidade de quem comenta o cardápio de um hotel. Drogas distribuídas em esquema quase institucional, dentro de um "programa" gravado e promovido abertamente nas redes sociais. Uma simulação de fama que escorrega perigosamente para o submundo.
Mas se o escândalo é evidente, mais escandalosa é a forma como a mídia trata figuras como Lokinho. A imprensa local, por vezes, troca o rigor jornalístico pela fofoca gourmet. Troca a denúncia pela audiência. A ficha criminal é ofuscada pela selfie na porta da delegacia. O passado é convenientemente apagado em nome do “buzz”.
Assim, Lokinho vira personagem recorrente: uma espécie de anti-herói pop da periferia, que oscila entre celebridade digital e cliente do DRACO. E enquanto isso, nomes como "Lalazinha" e "Brenda Raquel", também alvos da mesma operação, reforçam esse novo subgênero de notoriedade: o influencer criminalizado.
É claro que cabe à Justiça investigar, apurar e punir com base em provas, e não em manchetes. Mas o que se denuncia aqui não é apenas a conduta de Lokinho ou dos participantes da festa-reality. É o sistema inteiro que os transforma em espetáculo - e o faz com gosto.
A polícia precisa, sim, investigar a fundo: quem forneceu as drogas? Quem financiou o evento? Qual a real função de figuras como Vinicius, Sara e outros "organizadores"? A promessa de distribuição diária de entorpecentes não pode ser varrida para baixo do tapete só porque foi revelada por um “influencer” de reputação duvidosa. Se for verdade, trata-se de um esquema organizado, criminoso e preocupante.
Mas, ao mesmo tempo, é urgente refletir sobre como a mídia (e o público) valida esses personagens, conferindo a eles mais importância do que a própria lei. Lokinho já foi preso, solto, investigado, cancelado e aplaudido. E tudo isso enquanto canta vitória para milhões de seguidores — como se a Justiça fosse apenas um obstáculo temporário no caminho da viralização.
Se o Brasil virou um palco onde até criminosos têm fãs, talvez o erro não seja só deles.
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