
A corrupção no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) expôs uma triste realidade no Piauí: os aposentados e pensionistas do estado, muitos deles entre os mais pobres do país, foram duramente atingidos por um esquema de descontos indevidos em seus benefícios. Segundo a Controladoria-Geral da União (CGU), nove dos 19 municípios brasileiros com maior índice de descontos suspeitos estão no território piauiense - um escândalo que envolve diretamente o governo federal.
De acordo com os dados da CGU referentes a março de 2024, a cidade de Ribeiro Gonçalves lidera o ranking nacional com 65,40% dos aposentados e pensionistas sendo vítimas de descontos não autorizados, totalizando R$ 24.969,89 desviados em um único mês.
Ao todo, nove cidades piauienses integram a lista:
| Município | Beneficiários | Vítimas de descontos | % afetados | Valor total |
|---|---|---|---|---|
| Ribeiro Gonçalves | 1.263 | 826 | 65,40% | R$ 24.969,89 |
| Floresta do Piauí | 683 | 437 | 63,98% | R$ 12.817,41 |
| Patos do Piauí | 1.848 | 1.167 | 63,15% | R$ 34.790,17 |
| Jacobina do Piauí | 1.545 | 956 | 61,88% | R$ 28.224,91 |
| Porto Alegre do Piauí | 404 | 249 | 61,63% | R$ 7.994,96 |
| Passagem Franca do Piauí | 917 | 561 | 61,18% | R$ 16.777,17 |
| Matias Olímpio | 2.229 | 1.357 | 60,88% | R$ 42.181,73 |
| Antônio Almeida | 726 | 437 | 60,19% | R$ 13.548,70 |
| São José do Peixe | 955 | 573 | 60% | R$ 17.869,81 |
Esses valores representam apenas uma fração de um rombo estimado em R$ 6,3 bilhões no INSS, conforme investigações da Polícia Federal. O golpe atingiu idosos e viúvas com falsos empréstimos consignados e descontos automáticos de associações e sindicatos inexistentes.
Entre 2019 e 2024, organizações criminosas atuaram com auxílio de servidores e instituições financeiras, cadastrando indevidamente aposentados em supostos convênios e realizando descontos mensais em suas aposentadorias. Muitos só perceberam os desvios anos depois.
Os criminosos miraram principalmente municípios pobres e com baixa escolaridade, onde a fiscalização é escassa. O Piauí, por essas características, se tornou terreno fértil para esse tipo de fraude, com centenas de milhares de idosos enganados.
Embora o "consórcio criminoso" tenha ocorrido dentro do Ministério da Previdência Social e não no Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, a pergunta que não quer calar é: por que o MDS chefiado por Wellington Dias, não conseguiu identificar nem conter as fraudes em seu próprio Estado natal? Afinal, o então ministro Carlo Lupi e outros órgãos do governo já haviam sido alertados sobre a "jogatinha" com o dinheiro dos vilhinhos do INSS.
Wellington Dias, um dos aliados mais próximos do presidente Lula e ex-governador do Piauí por quatro mandatos, conhece como poucos a realidade do Estado. Sua pasta tem responsabilidade direta na fiscalização do INSS e na proteção de populações vulneráveis.
Mesmo com alertas públicos desde o início do ano, o ministério demorou a agir. Não houve medidas concretas para interromper os descontos nem proteger as contas dos beneficiários piauienses. Até hoje, faltam respostas claras sobre o motivo da omissão e da lentidão. Para muitos, a postura do ministério beira à negligência institucional.
Enquanto Brasília silenciava, milhares de aposentados do interior do Piauí viam seus benefícios sendo corroídos por cobranças misteriosas. Muitos deixaram de comprar remédios, alimentos e até mesmo pagar contas básicas.
O governo federal demorou a reconhecer o problema e, mesmo depois, não articulou políticas eficazes de restituição, responsabilização das entidades fraudulentas ou indenização dos lesados.
O caso revela mais do que falhas administrativas - é um retrato brutal do abandono do idoso pobre no Brasil. O fato de que as maiores vítimas estão em um Estado que deu ao presidente Lula a maior votação proporcional do país apenas aumenta a sensação de traição.
A população do Piauí, já castigada pela pobreza, seca e exclusão histórica, foi novamente esquecida - desta vez por um governo que se dizia comprometido com os mais vulneráveis. Por isso mesmo a oposição já grita: "Lula só gosta de pobre na hora de pedir o voto".
Se o governo quiser recuperar a confiança do povo, é urgente garantir a devolução dos valores aos aposentados prejudicados, punir os envolvidos e revisar completamente os convênios e autorizações no sistema do INSS. O tempo da omissão já passou. Agora, é hora de ação.
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