
O Residencial Torquato Neto, construído com o objetivo de reduzir o déficit habitacional em Teresina, se transformou em um palco de medo, crime e abandono estatal. Localizado na zona Sul da capital piauiense, o conjunto enfrenta desde sua entrega problemas estruturais, alagamentos crônicos, ausência de serviços públicos básicos e, acima de tudo, o avanço incontrolável do crime organizado.
Na manhã desta quinta-feira (22), a Secretaria de Segurança Pública do Piauí, por meio do Departamento de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (DRACO), deflagrou a 2ª fase da Operação Retomada - uma megaoperação integrada com a Polícia Militar, o Batalhão de Operações Aéreas, a FEISP, além de unidades de inteligência, que cumpriu 144 ordens judiciais. Os alvos: membros de facções que atuam não só no Torquato Neto, mas em outros bairros da zona Sul.
Apesar da magnitude da operação, a população segue se perguntando
A resposta passa por uma combinação de fatores estruturais, institucionais e políticos.
As operações policiais, embora necessárias, são pontuais e sem continuidade efetiva. Não há presença constante da polícia - nem com batalhão fixo, nem com delegacia no local. O patrulhamento é esporádico. Assim, o vácuo deixado pelo Estado é ocupado pelas facções, que impõem suas regras, instauram toque de recolher e decidem quem mora ou não na comunidade.
As facções têm controle logístico, social e psicológico da área. Comandam o tráfico, impõem normas e ameaçam moradores. Quem denuncia ou desobedece pode ser expulso ou morto. O domínio vai além do crime: é sociopolítico, com as facções atuando como um "governo paralelo".
Presos em operações como a Retomada 2 frequentemente voltam às ruas, seja por falhas no inquérito, por lentidão judicial ou por brechas legais. Lideranças continuam atuando de dentro dos presídios, dando ordens por celulares ou por meio de familiares.
O Torquato Neto foi mal projetado desde o início. Construído em área geograficamente complicada, com obras de drenagem e saneamento inconclusas, sofre alagamentos constantes, o que agrava o isolamento da região. Esse cenário cria o ambiente ideal para o avanço de grupos criminosos e afasta o poder público e investimentos sociais.
O conjunto foi entregue sem um plano de acompanhamento social. A ausência de programas de inserção comunitária, capacitação profissional, políticas de educação e cultura facilitou a coaptação de jovens pelas facções, que oferecem status, renda e poder imediato - ainda que à custa da violência.
Faltam vontade e prioridade política para resolver o problema de forma estruturante. Criar uma base permanente da PM, instalar uma Delegacia 24h, fortalecer a assistência social e implementar projetos comunitários exige investimentos e decisão política - que, até agora, têm sido tímidos ou ineficazes.
A ação policial pegou faccionados de surpresa, desarticulou temporariamente o núcleo de uma organização criminosa, apreendeu armas, drogas e documentos, e prendeu dezenas de suspeitos. É um avanço, mas, como nas ações anteriores, o risco é que em poucos dias o comando do crime seja retomado.
Policiamento permanente e ostensivo, com base fixa no residencial;
Delegacia instalada na região, com estrutura para atender ocorrências com rapidez;
Projetos sociais e urbanísticos para restaurar o tecido comunitário;
Investigação profunda e prisões eficazes das lideranças das facções, inclusive das que atuam de dentro dos presídios;
Compromisso real do poder público com segurança e dignidade para os moradores do Torquato Neto.
Enquanto isso não acontecer, o Torquato Neto continuará sendo refém do crime, onde a população vive entre o medo sonoro das balas e o silêncio das autoridades. As operações, por mais espetaculares que pareçam, precisam se transformar em políticas de Estado - e não apenas em eventos midiáticos. Caso contrário, o esforço dos homens destemidos das polícias militar e civil será sempre e tão somente o de "enxugar gelo".













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