
Se há algo mais repugnante do que roubar, é roubar dos mais frágeis. Foi exatamente isso que ocorreu sob as barbas do governo federal, em um esquema bilionário de descontos indevidos nos benefícios do INSS, revelado por investigação conjunta da Controladoria-Geral da União (CGU) e da Polícia Federal. Mais de R$ 6,3 bilhões foram arrancados de aposentados, pensionistas, indígenas analfabetos, pessoas com deficiência e doentes acamados. Uma pilhagem travestida de contribuição sindical, sustentada por associações fantasmas, fiscalização omissa e um governo complacente.
O que impressiona, mais que o valor, é o alvo: gente que sequer sabia que estava “associada”, que não assinou nada, que mal tem como sair de casa - quanto mais ir se filiar a um sindicato a 900 km de distância. Mas esse não foi um acaso. Foi método. Foi projeto. E foi conivência.
A esquerda brasileira, sempre pronta a berrar por direitos quando convém, agora silencia. Não há nota de repúdio, não há protesto em frente ao INSS, não há hashtags por justiça. Nada. A indignação é seletiva. A ética, intermitente. Porque, afinal, o escândalo ocorre no governo de Lula, e questionar seria um gesto de lucidez política que não combina com a militância fanatizada.
Os que roubaram dormem em paz, em 'berço explêndido'. Os que foram roubados - idosos, doentes, esquecidos - provavelmente nem sabem que foram vítimas. Muitos mal sabem ler. Outros sequer sabem que há um governo que deveria protegê-los. E a cleptocracia segue, impune e aplaudida.
O relatório da CGU é devastador:
29 entidades estão sendo investigadas. Nenhuma apresentou prova válida de autorização dos descontos.
Em sete entidades, entre 71% e 99% dos beneficiários negaram ter consentido.
Em 100% dos casos ouvidos, os idosos afirmaram desconhecer completamente a adesão.
Descontos foram feitos em nome de sindicatos a quase mil quilômetros de distância da residência das vítimas.
O total de beneficiários atingidos passa de 6 milhões de pessoas.
Esse escândalo não é apenas uma falha administrativa. É um crime institucionalizado - cometido em série, em nome da ideologia e da arrecadação fácil, com o aval tácito do poder público.
O que mais revolta é o ritmo letárgico das autoridades responsáveis. O Tribunal de Contas da União (TCU) ficou quase um ano sem julgar recursos importantes. O processo foi retirado de pauta cinco vezes. Só após pressão da Polícia Federal e da CGU - e sob o barulho da imprensa - é que o caso começou a andar.
Enquanto isso, R$ 3 bilhões por ano foram surrupiados das aposentadorias, com desconto em folha aprovado em convênios obscuros e sem checagem. O sistema falhou. O governo falhou. O silêncio do Congresso e do Judiciário é um vexame.
Diante do escândalo, a CGU recomendou o bloqueio imediato de novos descontos, exigiu a adoção de biometria e assinatura eletrônica para formalizar autorizações e sugeriu a revisão dos acordos com essas entidades.
Mas a pergunta que ecoa é: por que só agora? Onde estava o Ministério da Previdência? Onde estavam os deputados da base governista? Onde estavam os defensores dos direitos humanos quando indígenas eram roubados no contracheque?
Este caso não é desvio de conduta pontual. É retrato de um sistema apodrecido, em que estruturas sindicais, instâncias de governo e braços institucionais se organizam para roubar dos indefesos com proteção jurídica e aval político.
Não é exagero dizer que o Brasil hoje vive sob a égide de uma cleptocracia disfarçada de democracia social. Quem está no topo não governa: extrai. E quem está na base, especialmente os mais pobres e vulneráveis, paga a conta - com o silêncio cúmplice de quem deveria gritar.
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