Segunda, 29 de Junho de 2026
23°

Parcialmente nublado

Teresina, PI

Polícia A POLÍCIA VIROU ALVO

Na linha de fogo: a ousadia do crime e o silêncio do Estado na zona Sudeste de Teresina

Em apenas cinco meses, quatro policiais foram alvos da criminalidade numa mesma região da capital. Enquanto o governo exalta índices de letalidade policial, a bandidagem circula armada e sem medo, transformando agentes da lei em vítimas de uma segurança pública que agoniza

01/05/2025 às 09h24 Atualizada em 01/05/2025 às 10h19
Por: Douglas Ferreira
Compartilhe:
PMs que vítimas do crime nos últimos meses em Teresina - Foto: Reprodução
PMs que vítimas do crime nos últimos meses em Teresina - Foto: Reprodução

O banditismo perdeu o medo - e o respeito - pela Polícia Militar no Piauí. Na zona Sudeste de Teresina, a criminalidade não apenas desafia o Estado como pisa sobre ele, armada, ousada e sem qualquer constrangimento. Entre dezembro de 2024 e abril de 2025, quatro policiais - militares, bombeiros e civis - foram alvos diretos da violência. Alguns tombaram, outros escaparam por pouco. Todos, no entanto, escancaram o retrato de um território onde o crime parece ter deixado de temer a farda.

O ciclo de sangue começou em 9 de dezembro do ano passado, quando o sargento J. Oliveira foi baleado numa tentativa de assalto no bairro Alto da Ressurreição. Não resistiu e morreu dias depois no hospital. O episódio seria trágico, mas isolado - se não tivesse sido apenas o primeiro. No bairro Renascença, o sargento Valdir, desta vez do Corpo de Bombeiros, foi atacado por criminosos, baleado e teve sua arma e sua moto levadas pelos bandidos.

Cinco dias atrás, o cabo Antônio Elenilton Galvão foi executado covardemente por dois criminosos armados também no Renascença. E, como se fosse pouco, no último dia de abril, um policial civil teve sua arma e cordão roubados em plena Avenida das Hortas, no coração do Dirceu Arcoverde. O crime foi registrado por câmeras de segurança, onde se vê o agente sendo abordado por uma dupla numa motocicleta. A polícia, agora, investiga.

Todos esses crimes aconteceram em um raio de poucos quilômetros, em menos de meio ano, na mesma zona de Teresina. Uma área que abriga um batalhão da Polícia Militar e um distrito policial. Diante disso, só há duas conclusões possíveis: ou os criminosos se tornaram mais audaciosos e destemidos, ou a política de segurança pública está falhando gravemente. E se está falhando, onde exatamente?

Será a escassez de policiais nas ruas? A falta de estrutura das corporações? A ausência de inteligência integrada nas operações? Ou será que estamos diante de uma zona franca do crime, onde o policiamento ostensivo virou miragem, onde as abordagens se tornaram exceção, e onde a bandidagem desfila com armas na cintura como se estivesse no Velho Oeste?

O governador Rafael Fonteles declarou recentemente, com orgulho, que "a polícia do Piauí é a que menos mata no Brasil". De fato, a polícia não existe para matar. Mas também não pode existir para morrer. Quando policiais são caçados como presas e executados como alvos fixos, há algo gravemente doente no sistema. A polícia precisa, antes de tudo, prender - com firmeza, com presença e com estratégia. E, se necessário, precisa reagir, com o rigor que a lei permite.

Não se trata aqui de incitar violência, mas de exigir eficácia. O que se vê hoje na zona Sudeste é o avesso da autoridade. O Estado virou coadjuvante, espectador de uma criminalidade que dita regras, horários e territórios. A população assiste, entre o medo e o luto, ao desmoronamento da confiança na proteção pública.

É preciso enfrentar esse colapso com urgência. O que falta? Viaturas? Efetivo? Planejamento? Vontade política? Enquanto o governo aposta em narrativas estatísticas, a realidade escancara corpos, viúvas, órfãos e armas do Estado nas mãos de criminosos. A zona Sudeste virou símbolo de uma falência que ninguém mais pode ignorar.

Ressalte-se que em 2024 houve o registro de outros casos de policiais militares igualmente executados por criminosos tanto na capital quanto no interior do Estado. PMs como o sargento José Audi Silva, de 57 anos, assassinado por bandidos no Paque Brasil, zona Norte da capital. Os criminosos levaram a arma do PM.

A polícia não existe para matar. Nem para morrer. Existe para proteger. E, neste momento, nem ela está sendo protegida. Isso é um alerta que grita mais alto do que qualquer discurso ensaiado.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários