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Polícia AS EVIDÊNCIAS GRITAM

FEMINICÍDIO: a morte de Alice Borges e o horror anunciado de uma tragédia que ninguém impediu

Grávida, com medida protetiva em vigor e vítima de agressões anteriores, jovem foi encontrada morta no Rio Surubim. Delegada revela que o principal suspeito já havia tentado afogá-la antes. Estado falhou. Mais uma vez

24/04/2025 às 07h45
Por: Douglas Ferreira
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Darlan Oliveira, o principal suspeito da morte de Alice Borges, nega o feminicídio - Foto: Reprodução
Darlan Oliveira, o principal suspeito da morte de Alice Borges, nega o feminicídio - Foto: Reprodução

A morte da jovem Alice Borges Barroso, de 25 anos, grávida, cujo corpo foi encontrado boiando - sem vida - na barragem do Rio Surubim, em Campo Maior, deixa de ser um mistério para se tornar um retrato cruel do feminicídio anunciado - aquele que poderia ter sido evitado, mas não foi. As investigações da Polícia Civil do Piauí apontam para o ex-companheiro, Darlan Oliveira, como o principal suspeito. E as revelações mais recentes feitas pela delegada Emylle Kaynar Lopes, titular da Delegacia de Proteção à Mulher e aos Grupos Vulneráveis, apenas reforçam o que já se desenhava: Alice morreu porque o Estado não a protegeu a tempo.

Alice não era apenas mais uma jovem com uma medida protetiva - ela era uma mulher em perigo iminente. Nos últimos dias antes de desaparecer, ela registrou um boletim de ocorrência contra Darlan por lesão corporal. O laudo médico confirmou os ferimentos. E mais: segundo a delegada, Alice havia relatado que ele já havia tentado afogá-la antes - possivelmente no mesmo rio onde agora foi encontrada morta.

"Ele já havia tentado afogá-la antes", revelou Emylle, em entrevista ao Campo Maior em Foco, dando à investigação uma dimensão ainda mais alarmante: não se trata de um crime passional ou de um surto. É um crime premeditado, enraizado num histórico de violência que foi ignorado.

Alice Barros pediu ajuda, teve uma medida protetiva contra o agressor, mas terminou morta - Foto: Reprodução

O comportamento de Darlan no dia do desaparecimento foi, no mínimo, perturbador. Quando a amiga da vítima, Cláudia, chegou ao local e perguntou por Alice, ele estava visivelmente nervoso. Disse que a jovem havia “se jogado no rio” e se recusou veementemente a acionar a polícia. Tomou o celular da vítima das mãos da amiga e foi embora. Horas depois, ligaria para o pai dizendo a frase que ecoa agora como uma confissão velada: “Pai, o que vai ser da minha vida agora?”

Darlan se apresentou espontaneamente à polícia apenas após a decretação de sua prisão temporária, que tem validade de 30 dias. A investigação ainda depende do laudo cadavérico para confirmar a causa da morte e detalhar se houve afogamento forçado, esganadura ou outro tipo de violência. Mas os indícios já são eloquentes: testemunhos, lesões corporais, tentativas anteriores de homicídio, comportamento suspeito, fuga da cena e manipulação da narrativa.

Mais uma vez, a pergunta que resta é: como uma mulher com medida protetiva em vigor, grávida e sob risco real, termina morta, sozinha, no fundo de um rio?

A resposta é dura e conhecida: porque o sistema falha. Porque medidas protetivas não são barreiras físicas. Porque boletins de ocorrência são ignorados. Porque o medo das mulheres é tratado como histeria. E porque, no Brasil, uma mulher como Alice morre a cada seis horas vítima de feminicídio - muitas vezes por alguém que dizia amá-la.

A prisão de Darlan é apenas o começo de uma longa busca por justiça. Mas já é tarde para Alice. O que resta agora é a obrigação moral de transformar esse caso em denúncia permanente de um Estado que continua cúmplice pela omissão.

Alice Borges pediu socorro. Ela avisou. Ela lutou. Ela temia morrer.

E morreu.

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