
A Polícia Federal, em parceria com o Ministério Público Federal (MPF), deflagrou a Operação Aldeia Verde para desarticular um dos maiores esquemas de grilagem de terras indígenas do Cerrado piauiense. A investigação revelou uma rede criminosa que atuou na invasão e comercialização ilegal de aproximadamente 6.600 hectares de terras, utilizando fraudes documentais e corrupção de servidores. Entre os alvos estão agricultores, lideranças sindicais, servidores do Interpi, corretores de terras e até um ex-candidato a vereador pelo PT em Timon (MA).
Quem são os investigados
Os dez investigados apontados pelo MPF foram identificados como Adão Francisco de Sousa (dirigente sindical), Antônio Domingos Rocha Gomes (agricultor), Antônio James Rodrigues dos Santos (cacique indígena), Carlos Menandro Patta (empresário, alvo de mandado no Paraná), Francisco Helton Moreira da Silva (servidor do Interpi e ex-candidato a vereador pelo PT em Timon), João Teixeira (empresário), José Mateus Ferreira (agricultor), Manoel Alves Pereira (agricultor), Marcos de Sousa Silva Neto (corretor) e Michel Ramos de Sousa (auxiliar de cartório).
Como funcionava o esquema
Segundo o MPF, o grupo atuou entre 2021 e 2023 na tomada e regularização fraudulenta de terras indígenas. A estratégia envolvia a falsificação de documentos e o suborno de funcionários do Interpi, facilitando a legalização das áreas invadidas. Além disso, armas e munições foram fornecidas a grupos de invasores para assegurar a posse das terras.
Os criminosos identificavam terras devolutas e as vendiam a preços reduzidos para empresários, prometendo regularização fundiária por meio de documentos fraudados. Para garantir o sucesso da ocupação, recrutavam pequenos agricultores e usavam lideranças locais para remover os ocupantes originais. O esquema também contava com a emissão de procurações fraudulentas para legitimar a posse das terras, incluindo a participação de sindicatos e cartórios.
Investigadores apontam participação de líder indígena
Um dos aspectos mais polêmicos do caso é o envolvimento de uma liderança indígena no esquema. O cacique Antônio James Rodrigues dos Santos, segundo as investigações, utilizava sua posição para favorecer a grilagem e intermediar negociações entre invasores e compradores.
Investigações e operação policial
O MPF iniciou as investigações em 2022 após uma denúncia espontânea de um dos envolvidos, que revelou a estrutura do esquema. As provas coletadas apontaram a participação de diversos intermediários, incluindo um cacique da etnia Akroá-Gamella, utilizado como ponte para legitimar as transações fraudulentas.
A Operação Aldeia Verde foi deflagrada nessa quarta-feira (19) com o cumprimento de mandados de prisão preventiva e busca e apreensão em Teresina (PI), Currais (PI), Bom Jesus (PI), Mamboré (PR) e Maringá (PR). O objetivo é aprofundar as investigações e identificar outros possíveis envolvidos.
Impacto da grilagem e violência no campo
O esquema resultou na expulsão de ocupantes originais por meio de ameaças e violência nos municípios de Baixa Grande do Ribeiro, Uruçuí, Bom Jesus e Currais. A grilagem de terras no Cerrado piauiense tem impactos devastadores, afetando não apenas comunidades indígenas, mas também o meio ambiente, uma vez que a conversão ilegal de terras frequentemente resulta em desmatamento para expansão agropecuária.
O caso chama a atenção para a fragilidade dos mecanismos de proteção fundiária no Brasil e evidencia a necessidade de maior rigor na fiscalização de terras públicas. As investigações seguem em curso e devem trazer mais detalhes sobre o alcance dessa rede criminosa.
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