Domingo, 28 de Junho de 2026
32°

Tempo nublado

Teresina, PI

Nordeste REALIDADE

O desafio da representatividade: Queda no número de vereadores negros e pardos em Natal exige reflexão

A queda de 22% na representatividade de pretos e pardos nas eleições municipais de Natal, Rio Grande do Norte, em 2024, levanta questões profundas sobre as barreiras ainda presentes na construção de uma democracia verdadeiramente inclusiva

14/10/2024 às 10h25
Por: Douglas Ferreira
Compartilhe:
Número de vereadores pretos e pardos eleitos cai 22% em Natal - Foto: Reprodução
Número de vereadores pretos e pardos eleitos cai 22% em Natal - Foto: Reprodução

A frase "pobre não vota em pobre, mulher não vota em mulher, e preto não vota em preto" pode soar simplista, mas os números revelam nuances complexas e inquietantes na política brasileira. A queda de 22% na representatividade de pretos e pardos nas eleições municipais de Natal, Rio Grande do Norte, em 2024, levanta questões profundas sobre as barreiras ainda presentes na construção de uma democracia verdadeiramente inclusiva, mesmo em um estado governado por uma petista em segundo mandato, Fátima Bezerra.

Em 2020, Natal elegeu 9 vereadores que se autodeclararam pretos ou pardos. Agora, em 2024, esse número caiu para 7, em um universo de 29 cadeiras. Destes, apenas dois se declararam pretos: Brisa Bracchi (PT) e Matheus Faustino (União). Essa retração na representatividade sugere que, apesar do aumento de discursos de inclusão e diversidade, as urnas contam uma história diferente.

O fenômeno em Natal é agravado pela queda no número de candidaturas de pessoas negras. Em 2024, o número de candidatos que se declararam pretos ou pardos caiu expressivamente: 65 candidatos pretos em comparação a 87 em 2020, e 178 pardos, ante 209 na eleição anterior. A redução nas candidaturas por si só já é um indicativo de como as condições políticas e financeiras afetam diretamente a participação de grupos historicamente marginalizados.

Embora o Brasil tenha registrado um pequeno aumento nacional na eleição de vereadores negros – um acréscimo de 3% em relação a 2020 – a discrepância entre o número de candidatos e os eleitos ainda é alarmante. Em 2024, enquanto 52% dos candidatos a vereador no país se declararam negros, apenas 45,86% conquistaram uma cadeira. Ou seja, a população negra ainda enfrenta desafios que vão além da urna, e que começam no processo de escolha de quem pode ou não se lançar como candidato viável.

A queda observada em Natal espelha o cenário do Rio Grande do Norte como um todo. O Estado registrou uma redução tanto no número de candidatos pretos quanto pardos. A falta de diversidade nas câmaras legislativas se reflete também nos números indígenas: em 2024, apenas um indígena foi eleito em todo o Estado, entre 20 candidatos.

Esse cenário acende um alerta não apenas para as questões raciais, mas também para o papel das mudanças nas regras de financiamento eleitoral. A diminuição da cota do Fundo Eleitoral destinada a candidatos negros, de 50% para 30%, entre 2020 e 2024, pode ter contribuído diretamente para a queda na representatividade. A política pública, quando desidratada, afeta diretamente aqueles que já enfrentam obstáculos sistêmicos.

Os números são claros: a representatividade de negros e pardos não apenas está estagnada em alguns lugares, como em Natal, mas retrocedendo em outros. Isso revela que o caminho para uma democracia verdadeiramente inclusiva é longo e que mudanças superficiais não são suficientes para romper as barreiras estruturais que limitam a participação de grupos marginalizados.

A questão central vai além de simples escolhas eleitorais. Trata-se de uma sociedade que ainda não reconhece, em sua totalidade, a urgência de uma representatividade que reflita, de fato, a composição racial do país. É necessário um compromisso mais profundo e estrutural para garantir que a cor da pele não continue sendo um obstáculo para a participação política.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários