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Polícia CORRUPÇÃO

Lulinha, Ribas e a teia de relações que chega à Dataprev

Empresário amigo do filho de Lula esteve três vezes na estatal durante o atual governo e se reuniu com diretor afastado e investigado na Operação Sem Desconto

09/08/2026 às 09h13
Por: Douglas Ferreira
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Cleber Ribas, o amigo de Lulinha - Foto: Reprodução
Cleber Ribas, o amigo de Lulinha - Foto: Reprodução

A investigação da Polícia Federal sobre o escândalo dos descontos indevidos do INSS começa a revelar uma rede de relações que vai muito além dos personagens diretamente envolvidos na fraude contra aposentados e pensionistas. Um dos nomes que entrou no radar da PF é o empresário Cleber Ribas de Oliveira, dono da 3Structure It Ltda. e apontado como amigo de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula.

Ribas esteve três vezes na sede da Dataprev, em Brasília, durante o atual governo petista. A informação foi obtida por meio da Lei de Acesso à Informação e ganha relevância porque um dos encontros ocorreu em 7 de outubro de 2025 com Alan do Nascimento Santos, então diretor de Relacionamento e Negócios da estatal. Santos é investigado no âmbito da Operação Sem Desconto e foi afastado do cargo por decisão do ministro do STF André Mendonça.

As outras duas reuniões ocorreram em agosto de 2023 e dezembro de 2024, respectivamente com o presidente da Dataprev, Rodrigo Assumpção, e com o diretor de Tecnologia e Operações, Ricardo Borges. A estatal, entretanto, informou que não possui registros sobre os assuntos tratados e ressaltou que não mantém contrato com a empresa de Ribas.

É justamente aí que está o ponto que exige cautela, mas também investigação. Uma reunião em uma estatal não constitui, por si só, prova de irregularidade. A defesa de Ribas afirma que visitas técnicas de empresas a órgãos públicos são procedimentos comuns para apresentação de produtos e serviços. Também sustenta que todos os contratos da 3Structure foram celebrados dentro dos procedimentos legais e sem favorecimento.

O problema é que a Polícia Federal não está olhando para cada episódio de forma isolada. Segundo a investigação, existem suspeitas de que Ribas tenha atuado em conjunto com Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, e com a empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, na prospecção de negócios junto ao governo federal. E entre os órgãos que despertavam interesse do grupo estaria justamente a Dataprev.

Outro elemento acrescenta peso à investigação. A 3Structure It Ltda. celebrou seis contratos com o governo federal que totalizam R$ 85,7 milhões. Cinco desses contratos foram firmados durante o atual governo. Novamente, contratos públicos não significam automaticamente ilegalidade. O que a investigação tenta esclarecer é se houve ou não influência indevida, intermediação irregular ou favorecimento na obtenção desses negócios.

A relação com Roberta Luchsinger também chama atenção. Segundo informações reveladas pela investigação, a empresa de Ribas teria pago R$ 150 mil à RL Consultoria e Intermediações Ltda., empresa que tem Roberta e o pai como sócios. A explicação apresentada é que ela foi contratada para atuar na prospecção de clientes e identificação de oportunidades de negócios no setor de tecnologia.

É nesse ponto que a história deixa de ser apenas uma sucessão de encontros empresariais e passa a despertar uma questão institucional mais profunda. Por que empresários próximos ao círculo de Lulinha aparecem repetidamente em negociações ou relações com órgãos públicos e empresas que movimentam contratos milionários?

A pergunta não significa antecipar uma conclusão criminal. Cabe à PF provar se houve crime, tráfico de influência ou corrupção. Cabe ao Ministério Público avaliar as evidências e à Justiça decidir. Mas cabe também ao jornalismo investigar as conexões, confrontar versões e acompanhar a origem e o destino do dinheiro.

O episódio ainda reforça uma situação politicamente incômoda para o governo Lula. O filho do presidente não ocupa cargo público, mas seu nome aparece novamente associado a empresários que mantêm negócios relevantes com o governo federal. A defesa de Lulinha classificou a abertura dos inquéritos como uma espécie de “pesca probatória”. A expressão revela o confronto entre duas narrativas: de um lado, a defesa sustenta que não existem elementos concretos; de outro, a PF afirma encontrar indícios suficientes para aprofundar as investigações.

A Dataprev, nesse contexto, torna-se uma peça importante para esclarecer o quebra-cabeça. Não porque a empresa tenha contratado a 3Structure, o que não ocorreu, segundo a própria estatal, mas porque o empresário esteve dentro da companhia em diferentes momentos e chegou a se reunir com um diretor posteriormente afastado e investigado.

O caso exige, portanto, menos paixão política e mais transparência. Se as reuniões foram exclusivamente técnicas, que se esclareça. Se os contratos foram regularmente conquistados, que os processos sejam apresentados. Se os pagamentos a consultores correspondem a serviços efetivamente prestados, que isso seja demonstrado. E, se a investigação encontrar favorecimento ou tráfico de influência, que os responsáveis respondam perante a Justiça.

A questão central não é saber se ser amigo de Lulinha constitui crime, porque evidentemente não constitui. A questão é saber se amizades, relações empresariais e contatos políticos foram utilizados para abrir portas dentro da máquina pública.

É essa fronteira que a investigação precisa estabelecer. E quanto maior o volume de dinheiro público envolvido, maior deve ser a transparência. Afinal, quando aparecem simultaneamente Lulinha, empresários próximos, contratos milionários, consultorias, dirigentes de estatais e investigados na Farra do INSS, não basta dizer que são apenas coincidências. É preciso investigar, documentar e esclarecer.

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