
Itaubal nasceu com história. Não foi um daqueles municípios criados às pressas nos anos 90 apenas para multiplicar currais eleitorais, cargos públicos e estruturas políticas artificiais. A cidade surgiu ainda em 1935, quando famílias de agricultores começaram a ocupar a região. Depois vieram novos moradores, a imagem de São Benedito, o crescimento local e finalmente a emancipação política em 1992.
Havia identidade. Havia produção. Havia sentido econômico e social.
Mas isso ficou no passado.
Hoje, Itaubal parece representar um fenômeno que se espalha silenciosamente pelo Brasil: municípios que continuam existindo administrativamente, mas perderam quase completamente sua função econômica.
Localizada no interior do Amapá, próxima de Macapá, a pequena cidade virou símbolo nacional da dependência social extrema. Segundo dados divulgados pela Revista Oeste, cerca de 93% da população recebe Bolsa Família. É praticamente uma cidade inteira sustentada diretamente por transferência federal de renda.
E talvez o dado mais impressionante nem seja esse.
Entre aproximadamente 6 mil habitantes, apenas 28 pessoas possuem emprego formal com carteira assinada. É como se uma cidade inteira coubesse dentro de um estádio, mas apenas uma pequena van de trabalhadores sustentasse oficialmente toda a economia local.
Um emprego formal para cada 215 habitantes.
Não se trata aqui de atacar quem recebe benefício social. O problema não é o cidadão pobre. O problema é um modelo econômico que transforma municípios inteiros em estruturas dependentes permanentes do Estado.
Itaubal parece viver uma espécie de coma econômico administrado.
A economia gira lentamente em torno de pequenos comércios, agricultura de subsistência, alguma pecuária e, principalmente, dos repasses federais. O dinheiro não nasce da produção local. Ele chega de fora. E quando uma cidade depende quase exclusivamente disso, ela deixa de crescer por mérito econômico próprio e passa apenas a sobreviver administrativamente.
Segundo o IBGE, existem menos de 80 veículos em toda a cidade. Isso ajuda a medir o tamanho da fragilidade econômica local. Poucos carros. Pouca circulação financeira. Pouco consumo. Pouca atividade produtiva.
Uma cidade que funciona quase como um posto avançado burocrático sustentado pelo contribuinte nacional.
E o mais desconfortável nessa discussão é admitir que Itaubal não é exceção.
Centenas de pequenos municípios brasileiros vivem situação parecida. Alguns praticamente não arrecadam. Outros não possuem atividade industrial relevante, setor produtivo forte ou capacidade de gerar empregos formais suficientes para sustentar minimamente a própria estrutura pública.
Mesmo assim mantêm prefeitura, câmara municipal, secretarias, cargos políticos, estruturas administrativas e despesas permanentes.
Em muitos casos, a máquina pública virou a principal atividade econômica da cidade.
O município passa a existir para sustentar a si mesmo. Uma espécie de círculo vicioso administrativo onde a prefeitura emprega para movimentar uma economia que não consegue mais se mover sozinha.
É como uma árvore que já não produz frutos, mas continua consumindo água, espaço e manutenção apenas porque ninguém teve coragem de podá-la.
Claro que Itaubal ainda tenta reagir. Há iniciativas locais como revitalização da orla e pequenos investimentos urbanos. Existe esforço da população e de lideranças locais. Mas a realidade econômica continua extremamente limitada.
E talvez a pergunta mais incômoda seja justamente essa: quantos municípios brasileiros ainda sobrevivem por capacidade produtiva própria e quantos já sobrevivem apenas por transferência estatal?
O Brasil criou ao longo das últimas décadas uma imensa rede de dependência administrativa que hoje pesa sobre toda a estrutura federativa. Municípios que pouco produzem participam igualmente da partilha nacional de recursos. Não fortalecem significativamente a arrecadação, mas continuam consumindo parcela crescente dela.
O caso de Itaubal apenas joga luz sobre uma discussão que o país evita enfrentar.
Até que ponto faz sentido manter determinadas estruturas municipais quando elas já não possuem autonomia econômica mínima para justificar a própria existência?






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