
A história da Naskar Gestão de Ativos começa a ganhar contornos de uma daquelas tragédias financeiras que deixam um rastro de destruição emocional por onde passam. O que até poucos dias atrás parecia uma empresa sólida, lucrativa e confiável virou, para milhares de investidores, uma espécie de castelo de areia atingido por um tsunami.
O sumiço dos três sócios da empresa acendeu o alerta máximo no mercado. Marcelo Liranco Arantes, Rogério Vieira e José Maurício Volpato, o ex-jogador de vôlei Maurício Jahu, desapareceram do radar dos clientes exatamente no momento em que os pagamentos mensais deixaram de cair nas contas.
E em operações desse tipo, o silêncio costuma fazer mais barulho do que qualquer confissão.
A dinâmica que começa a emergir lembra o roteiro clássico de colapsos financeiros que se repetem ao redor do mundo há décadas. Primeiro vem a promessa sedutora de rentabilidade acima da média. Depois, a construção lenta da confiança. Em seguida, entram familiares, amigos, empresários e aposentados. O dinheiro começa a circular como água em cachoeira. E enquanto os pagamentos seguem em dia, ninguém pergunta de onde realmente vem o lucro.
A Naskar prometia retorno mensal de 2%, percentual muito acima do praticado no mercado tradicional. Na prática, o investidor acreditava estar diante de uma máquina de dinheiro permanente. Era como encontrar um posto de gasolina vendendo combustível pela metade do preço em plena crise mundial. Muita gente até estranha no começo, mas continua abastecendo porque o sistema aparentemente funciona.
Segundo relatos, foi exatamente isso que aconteceu durante anos. A empresa pagava corretamente. Os clientes recebiam os rendimentos. A confiança crescia. O boca a boca se espalhava. Novos investidores entravam. Escritórios passaram a indicar a fintech. Alguns clientes colocaram absolutamente tudo dentro da operação.
O problema é que modelos assim costumam depender de uma engrenagem extremamente delicada. Quando novos aportes diminuem ou quando ocorre qualquer ruptura financeira interna, o sistema inteiro começa a balançar como um prédio construído sobre areia movediça.
O detalhe mais preocupante é justamente o comportamento atual dos sócios. Eles pararam de responder mensagens, não atendem ligações, desapareceram das redes sociais e deixaram o aplicativo da empresa fora do ar. Para investigadores financeiros, esse tipo de apagão simultâneo costuma ser visto como um dos sinais mais graves em possíveis operações fraudulentas.
Até agora, não houve explicação pública convincente da empresa. Nenhuma coletiva. Nenhum comunicado robusto. Nenhum cronograma de regularização. Nenhuma tentativa clara de conter o pânico.
E é exatamente esse vazio que faz crescer a sensação coletiva de golpe.
A Polícia Civil do Distrito Federal já investiga o caso. O tamanho potencial do prejuízo assusta. A estimativa gira em torno de R$ 900 milhões captados de cerca de 3 mil clientes espalhados pelo país.
Os relatos das vítimas revelam o tamanho humano da tragédia. Há aposentados que colocaram toda a reserva de vida na empresa. Empresários que investiram milhões. Pessoas que convenceram familiares a aplicar recursos na fintech. Em muitos casos, a relação de confiança foi construída ao longo de seis anos ou mais.
O drama do empresário Wesley Albuquerque simboliza bem o tamanho do colapso emocional. Ele afirma ter captado 135 clientes para a Naskar, totalizando R$ 47 milhões em investimentos. Além do próprio dinheiro aplicado, recomendou a empresa para a própria mãe, que vendeu uma casa para investir os recursos.
Quando operações desse tipo quebram, o prejuízo não destrói apenas patrimônio. Ele implode amizades, famílias, reputações e saúde emocional. É como se um prédio inteiro desabasse sobre pessoas que acreditavam estar protegidas dentro dele.
Neste momento, ainda é cedo para afirmar juridicamente que houve golpe financeiro estruturado ou esquema fraudulento deliberado. A investigação da Polícia Civil precisará rastrear fluxos bancários, contratos, patrimônio e movimentações dos sócios.
Mas o cenário atual reúne praticamente todos os ingredientes que historicamente aparecem em grandes colapsos financeiros brasileiros. Rentabilidade elevada, crescimento acelerado, confiança construída no boca a boca, ausência de transparência sobre as operações e desaparecimento repentino dos responsáveis.
No mercado financeiro, confiança funciona como vidro. Leva anos para ser construída e segundos para se despedaçar.
E hoje, para milhares de clientes da Naskar, o barulho desse vidro quebrando pode estar apenas começando.
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