
A decisão do governo do Rio de Janeiro de não patrocinar o show de Shakira não é apenas um gesto administrativo. É um recado. Um gesto que, lido com atenção, revela o contraste entre dois modelos de gestão pública e, sobretudo, duas formas de encarar o dinheiro do contribuinte.
O Rio, com um PIB que gira na casa do trilhão, poderia facilmente bancar o espetáculo. Tem musculatura econômica para isso. Ainda assim, diante de uma crise fiscal, optou por fazer o básico do que se espera de um governo que lê a realidade: cortar o supérfluo para preservar o essencial. Não cancelou o evento, não inviabilizou a cultura, não virou as costas para o turismo. Apenas fez o que qualquer gestor prudente faria em tempos difíceis: separou o que é necessário do que é dispensável. Garantiu segurança, logística, estrutura. Mas não abriu o cofre para pagar cachê artístico.
Agora olhe para o Piauí.
Um Estado com economia infinitamente menor, com desafios históricos em áreas básicas e com uma dependência estrutural de recursos públicos muito mais sensível. Tanto que vive hoje nas mãos de agiotas oficiais. Ainda assim, o que se vê é um comportamento que destoa da realidade. É como se um cidadão endividado resolvesse dar festa de luxo enquanto a geladeira está vazia. A comparação pode parecer dura, mas é exatamente disso que se trata.
Enquanto o Rio, rico, pisa no freio, o Piauí, pobre, parece acelerar.
A diferença entre os dois casos não está apenas nos números. Está na mentalidade. O Rio age como quem reconhece seus limites, mesmo tendo margem. O Piauí, em muitos momentos, atua como quem ignora suas próprias fragilidades. É a clássica síndrome de quem ganha pouco, mas quer viver como se ganhasse muito. Esbanjando de forma perdulária. Um comportamento que, na vida privada, leva ao endividamento. Na gestão pública, leva ao desequilíbrio fiscal.
A comparação com o show de Alok é inevitável. Não pelo evento em si, mas pelo simbolismo. Em um dos Estados mais pobres da federação, a simples associação a cifras milionárias, R$ 1,8 milhões, em torno de entretenimento levanta uma pergunta básica: é isso que deveria ser prioridade? É disso que o povo precisa? E a água na torneira?
E mais grave ainda é o ruído na comunicação. Quando o próprio artista afirma publicamente, na cara do govenador que não recebeu recursos públicos, e o governo não apresenta uma resposta clara, o que se instala não é apenas dúvida. Também pudera. Rafael Fonteles estava "chupetinha". É desgaste. E em política, desgaste não nasce do fato em si, mas da ausência de explicação convincente. O governo deu o silêncio como resposta.
O Rio, com toda sua riqueza, entendeu que crise fiscal exige contenção. O Piauí, com todas as suas limitações, parece, em alguns momentos, agir como se estivesse imune a ela. É como dois motoristas na mesma estrada: um reduz a velocidade ao ver a curva, o outro acelera confiando que nada vai acontecer.
Os números ajudam a dimensionar o abismo. O PIB do Rio ultrapassa R$ 1,3 trilhões, impulsionado por setores robustos como indústria e energia. O Piauí, com cerca de R$ 80 bilhões, depende fortemente do agronegócio e ainda luta para consolidar sua base produtiva. São realidades completamente distintas. E justamente por isso, esperava-se uma lógica inversa: mais cautela onde há menos margem, mais ousadia onde há mais folga. O que se vê, porém, é o contrário. E haja empréstimos!
Isso revela algo mais profundo.
Não se trata apenas de decisões pontuais, mas de visão de gestão. Um governo que entende que o dinheiro público é finito age com parcimônia. Um governo que passa a tratá-lo como instrumento de projeção política corre o risco de perder a noção de prioridade.
No fim, a questão não é cultural, nem artística. É fiscal. É administrativa. É moral no sentido público da palavra. Gastar bem não é gastar muito. É gastar certo. É elementar meu caro Watson! E nem precisa ser gênio da matemática. Basta saber as quatro operações, sem precisar contar nos dedos.
O Rio, mesmo com seus problemas, sinalizou responsabilidade. O Piauí, ao flertar com gastos questionáveis diante de uma realidade econômica limitada, transmite outra mensagem. E essa mensagem é perigosa: a de que aparência pode estar acima da prudência.
Porque, no final das contas, não é o tamanho do bolso que define responsabilidade, é a forma como se usa o dinheiro que está dentro dele.
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