
Só mesmo em um ambiente político desgastado até o limite e um governo marcado por sucessivos escândalos de corrupção, uma frase como “não roubar” deixa de ser obrigação e passa a soar como proposta inovadora. Romeu Zema entra nesse debate como quem aponta o básico, mas transforma o básico em provocação direta. É como um médico dizer que o tratamento começa parando de agravar a doença. O fato de isso gerar impacto já revela o tamanho do problema.
Zema não está falando ao acaso. Ele cutuca uma ferida aberta, exposta há anos, que atende pelo nome de corrupção estrutural. Não é apenas desvio pontual, é um modelo que, muitas vezes, transforma máquina pública em instrumento político, cabide de emprego e fonte de desperdício. E quando ele resume isso em “não roubar”, ele simplifica o discurso, mas amplia o alcance.
O ponto mais sensível está nas estatais. Empresas que deveriam ser motores da economia, mas que frequentemente viram palco de disputas, indicações políticas e decisões que pouco têm a ver com eficiência. É como um carro potente sendo dirigido com o freio puxado e o tanque vazando. A conta, inevitavelmente, chega.
O debate sobre privatização entra exatamente aí. Petrobras, Banco do Brasil, Correios. Para uns, símbolos de soberania. Para outros, estruturas que, ao longo do tempo, foram corroídas por má gestão e interferência política. A discussão deixa de ser ideológica quando os números começam a incomodar. Quando empresas que já foram lucrativas passam a apresentar resultados negativos, o discurso precisa sair da teoria e encarar a prática.
O caso dos Correios é emblemático nesse cenário. Uma estatal que opera praticamente sem concorrência direta em vários serviços e, ainda assim, enfrenta dificuldades para justificar resultados negativos expressivos. É um prejuízo atrás do outro. É como ter um mercado garantido e mesmo assim fechar no vermelho. A pergunta não é apenas econômica. É administrativa. O que está sendo feito de errado para transformar vantagem em prejuízo.
E os números recentes tornam o quadro ainda mais inquietante. Os Correios estão negociando com bancos um empréstimo de cerca de R$ 20 bilhões para tentar equilibrar as contas. A necessidade não surgiu do nada. Vem de uma sequência de prejuízos, como os R$ 4,3 bilhões registrados apenas no primeiro semestre de 2025, bem acima dos R$ 1,3 bilhão no mesmo período do ano anterior. É como um paciente que, além de não melhorar, passa a precisar de transfusão constante para se manter de pé.
Nem mesmo a Petrobras escapa desse debate. A estatal até registrou um lucro líquido de R$ 110,1 bilhões em 2025, um salto expressivo em relação ao ano anterior. Mas lucro, por si só, não encerra a discussão. A crítica que ganha corpo é a de uma gestão que ainda carrega vícios antigos, funcionando como vitrine de indicações e espaço para interesses que orbitam o poder central. É como uma empresa que fatura alto, mas segue com a engrenagem desalinhada, correndo o risco de transformar força em fragilidade no médio prazo.
E não é um caso isolado. A percepção de que estatais vêm enfrentando dificuldades recorrentes levanta um questionamento mais amplo. O problema está no modelo ou na gestão? Porque quando várias estruturas apresentam desempenho ruim ao mesmo tempo, a coincidência deixa de ser coincidência.
Zema, ao prometer privatizar, cortar privilégios e reduzir gastos, entra nesse debate como quem joga luz em um sistema que muitos preferem manter na penumbra. Quando fala em acabar com supersalários e mordomias, ele toca em áreas sensíveis, onde o discurso de justiça social muitas vezes não alcança a prática interna do próprio Estado.
O discurso pode parecer direto demais, até simplista para alguns. Mas ele tem um efeito claro. Ele traduz em poucas palavras um sentimento acumulado. E faz isso com uma estratégia que funciona. Em um cenário complexo, quem simplifica a mensagem tende a ser ouvido.
No fim, a provocação de Zema não está apenas no que ele promete. Está no que ele expõe. Quando “não roubar” vira bandeira, o problema não está em quem levanta a bandeira. Está no sistema que fez essa bandeira deixar de ser óbvia.
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