
O IBGE anunciou: o PIB brasileiro cresceu 2,3% em 2025 e atingiu R$ 12,7 trilhões. Parece bom? Depende da régua. Em 2024, o crescimento foi de 3,4%. Ou seja, desaceleramos. E não pouco. É o menor resultado em cinco anos.
O Brasil cresce. Mas cresce como quem sobe escada rolante desligada: avança, mas sempre com a sensação de esforço excessivo para pouco ganho.
E há um detalhe simbólico que dói mais que o número: em 2025, o país deixou o seleto clube das 10 maiores economias do mundo. Para uma nação continental, tropical, rica em água, solo fértil, minério, petróleo e sem terremotos devastadores, isso não é apenas estatística. É constrangimento estrutural.
Se há um herói nessa história, ele atende pelo nome de agropecuária. O setor cresceu 11,7% em 2025. Milho subiu 23,6%. Soja, 14,6%. Recordes atrás de recordes.
Enquanto isso:
Serviços cresceram 1,8%.
Indústria, 1,4%.
Indústria de transformação caiu 0,2%.
Traduzindo: o campo corre maratona; a cidade faz caminhada leve; a fábrica tropeça.
Se não fosse o agronegócio, o PIB teria sido anêmico. O Brasil virou uma espécie de fazendão high-tech com Wi-Fi instável na área industrial.
Não é demérito produzir alimentos. Pelo contrário. Mas é sintomático quando quatro atividades, agropecuária, indústrias extrativas, informação e comunicação e outros serviços, respondem por 72% do valor adicionado, segundo o próprio IBGE. Estamos concentrados. E concentração econômica é como dieta monotemática: pode sustentar, mas não fortalece tudo.
A taxa Selic a 15% funciona como freio de mão puxado. O consumo das famílias cresceu 1,3%. No ano anterior, havia crescido 4,8%. A desaceleração era previsível.
Famílias endividadas, crédito caro, empresas cautelosas. Investimento cresceu 2,9%, mas a taxa de investimento ficou em 16,8% do PIB. País que quer decolar com menos de 20% de investimento estrutural é como avião tentando subir com tanque pela metade.
A indústria extrativa avançou 8,6%, puxada por óleo e gás. Ou seja: vendemos o que tiramos do chão. Já a indústria de transformação, aquela que agrega valor, recuou. É como exportar laranja e importar suco engarrafado.
O Brasil é o aluno que sempre “tem potencial”. Décadas passam, o boletim sai, e o comentário é o mesmo: “poderia render mais”.
Temos mercado interno gigante. Temos recursos naturais abundantes. Temos estabilidade climática relativa. Não temos guerra. Não temos cataclismos naturais devastadores recorrentes.
Então por que não decolamos?
Porque crescemos aos trancos, não por projeto de longo prazo. Porque alternamos ciclos de expansão com crises fiscais. Porque a previsibilidade institucional oscila. Porque reformas estruturais caminham a passo de tartaruga asmática.
Crescer 2,3% não é tragédia. Mas também não é proeza para um país emergente que precisa gerar emprego, renda e infraestrutura para 213 milhões de habitantes.
No quarto trimestre, o PIB cresceu 0,1%. Tecnicamente positivo. Na prática, quase estagnação.
Serviços subiram 0,8%. Agro, 0,5%. Indústria caiu 0,7%.
É como um carro que ainda está ligado, mas claramente perdeu potência na subida.
Cinco anos seguidos de crescimento são positivos. Mas crescimento modesto repetido vira armadilha de renda média. O país não regride dramaticamente, mas também não avança o suficiente para mudar de patamar.
Enquanto outras economias investem pesado em tecnologia, inovação e produtividade industrial, o Brasil ainda debate o básico: equilíbrio fiscal, reforma tributária funcional, segurança jurídica estável.
O dado mais provocativo não é o 2,3%. É a pergunta que ele escancara:
Como o maior país tropical do planeta, dono de riquezas naturais invejáveis e mercado interno robusto, não consegue manter crescimento sustentado acima de 3% ou 4% de forma consistente?
Não é falta de recurso.
Não é falta de território.
Não é falta de sol ou chuva.
É falta de continuidade estratégica.
O agro mostra que, quando há tecnologia, escala e competitividade, o Brasil entrega resultado. A pergunta é por que esse padrão não se replica de forma sistêmica na indústria e na inovação.
O Brasil não está em crise aguda. Mas também não está em transformação estrutural.
Crescer 2,3% é melhor do que encolher. Mas para um país que sonha grande, é pouco. Muito pouco.
Somos um gigante que insiste em caminhar quando poderia correr.
E o mundo não espera quem anda devagar.
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