
“Donald Trump é o governo da taxação!”, grita o esquerdista indignado, como se estivesse anunciando o apocalipse fiscal. A frase vem carregada de convicção moral, punho cerrado e meme pronto para viralizar. Mas a pergunta incômoda precisa ser feita: quem taxa mais, Trump ou Lula?
A resposta pode surpreender. E não é pouca coisa.
Primeiro, didática básica: tarifa de importação não é a mesma coisa que carga tributária doméstica.
Quando um governo impõe tarifa sobre produtos estrangeiros, ele está taxando o comércio externo. Quando aumenta impostos internos, está taxando o próprio cidadão, o consumo, o investimento, o crédito, a renda.
Segundo os dados apresentados, Donald Trump aplicou tarifa adicional de 10% (15% em alguns casos) sobre parte dos produtos brasileiros. Mas isentou 46% dos embarques, algo em torno de US$ 17,5 bilhões, e reduziu a alíquota média para cerca de 12,77%. Resultado: o Brasil acabou ficando entre os países relativamente menos penalizados na média tarifária.
Já no cenário doméstico brasileiro, o movimento foi outro.
Desde 2023, o governo Lula promoveu sucessivos aumentos ou recriações de tributos. Em média, segundo o levantamento citado, houve uma nova taxação a cada 37 dias.
Ressuscitou Cide. Elevou PIS/Cofins. Ajustou IOF. Mexeu em IPI. Alterou regras de tributação sobre investimentos no exterior. Passou a taxar fundos exclusivos. Propôs mudanças sobre dividendos. Reoneração de combustíveis. E por aí vai.
Se imposto fosse aplicativo, o brasileiro já teria desinstalado.
A carga tributária bruta chegou a 32,32% do PIB em 2024, segundo dados do Tesouro e da Receita. É o maior patamar em 22 anos.
Traduzindo: de cada R$ 100 produzidos na economia, mais de R$ 32 ficam com o Estado.
E o contribuinte médio sente isso no supermercado, na gasolina, na conta de luz, no cartão de crédito, no financiamento do carro, no imposto embutido em cada produto.
Trump pode até taxar a entrada do produto brasileiro nos Estados Unidos. Lula taxa a vida do brasileiro dentro do próprio Brasil.
Na calada da noite, por meio de resolução, o governo elevou o Imposto de Importação em até 25% sobre 1.252 produtos, incluindo eletrônicos.
A justificativa oficial: proteger a indústria nacional.
Mas a pergunta que ecoa nas redes é inevitável: proteger qual indústria? O Brasil fabrica iPhones? Consoles de videogame? Laptops de ponta? Smartphones de última geração?
A lógica é curiosa: se o produto não é produzido aqui em escala competitiva, a tarifa não cria indústria automaticamente. Apenas encarece o acesso do consumidor.
É como proibir a entrada de vinho importado para “estimular” a produção local de uva no sertão. A teoria é patriótica; a prática é inflacionária.
O discurso político simplifica. A realidade complica.
Trump usa tarifa como instrumento de política comercial externa. Lula amplia a arrecadação para equilibrar contas públicas pressionadas por aumento de gastos.
A diferença está no alvo. Um incide sobre importações estrangeiras. O outro sobre o próprio contribuinte.
É como comparar pedágio na fronteira com pedágio na porta da sua casa.
Chamar Trump de “governo da taxação” pode render aplauso ideológico. Mas, olhando friamente os números internos, o Brasil vive um período de forte elevação de carga tributária.
Se a régua for o peso total de impostos sobre a população, Lula governa sob uma das maiores cargas tributárias da história recente do país.
Isso significa que a discussão não deveria ser apenas ideológica, mas estrutural: por que o Estado brasileiro arrecada tanto e ainda entrega tão pouco em serviços públicos proporcionais?
No fim das contas, o debate não é sobre quem grita mais alto nas redes. É sobre quem pesa mais no bolso.
Trump pode ser o xerife da tarifa.
Mas o Leão da Receita continua sendo brasileiro.
E esse, diferente das tarifas externas, não dá para exportar.
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