
O projeto do hidrogênio verde do governo Rafael Fonteles foi vendido como a menina dos olhos da gestão, a prova de que o Piauí havia entrado, enfim, na liga das grandes apostas globais da transição energética. Era o futuro batendo à porta, limpo, sustentável, moderno. Só esqueceram de avisar um detalhe básico: o futuro precisa de presente bem feito. E foi justamente aí que tudo desandou.
Antes de gerar um único metro cúbico de hidrogênio, antes de empregar, exportar ou transformar a matriz econômica do Estado, o projeto já produziu aquilo que o Piauí conhece bem: processo judicial, insegurança jurídica e recuo empresarial. O resultado é inequívoco e constrangedor: o projeto virou um natimorto administrativo, enterrado ainda no berço do licenciamento.
A desistência da Solatio não é um detalhe burocrático. É um sinal vermelho piscando. A empresa pediu o cancelamento da licença ambiental, saiu de cena e ainda solicitou à Justiça Federal a extinção da ação do Ministério Público Federal por perda de objeto. Traduzindo do juridiquês para o português claro: “não vamos mais brincar disso”.
O MPF fez o papel que a Constituição lhe atribui, questionou licenciamento, outorga de água, impactos ambientais e possíveis danos a áreas de conservação. Nada disso surgiu do nada. Não foi perseguição ideológica nem birra institucional. Foram questionamentos técnicos e legais. Diante deles, a empresa não peitou, não corrigiu o rumo, não ajustou o projeto. Recuou. Lavou as mãos. Escafedeu-se.
E aí a pergunta que não quer calar: quem errou?
Se as exigências do MPF são justas e legais, e tudo indica que são, então alguém falhou gravemente antes. Ou a Solatio entrou no Piauí sem compreender o terreno jurídico e ambiental em que pisava, ou o governo do Estado vendeu um ambiente de facilidades que não se sustenta quando o processo é colocado sob a lupa federal. Em ambos os casos, o prejuízo não é só empresarial. É institucional.
O governo Fonteles fica entalado. A Invest Piauí, que deveria ser vitrine de segurança e profissionalismo, também. A mensagem que ecoa no meio empresarial, sobretudo no setor energético, é péssima. Fica a dúvida cruel: o Piauí é um lugar onde grandes projetos nascem para prosperar ou para judicializar?
Empresários são como gatos escaldados: depois de uma experiência ruim, fogem até de água fria. Que imagem a Solatio levará do Piauí para o mercado internacional? Que leitura farão outras empresas que cogitavam se instalar no Estado? O hidrogênio verde, que seria a joia da coroa, acabou virando um colar de contas quebradas.
O mais irônico é que o projeto não caiu por falta de discurso, marketing ou power point. Caiu por algo bem mais prosaico e essencial: governança, planejamento e alinhamento institucional. Faltou combinar o espetáculo com o backstage.
No fim das contas, o hidrogênio verde do Piauí virou uma espécie de carro elétrico sem bateria: bonito na propaganda, silencioso no discurso, mas incapaz de sair da garagem. O governo apostou alto, anunciou cedo demais e colheu o pior dos mundos: nem obra, nem legado, nem credibilidade.
Não se trata de torcer contra o desenvolvimento. Pelo contrário. Justamente por querer o desenvolvimento é que se exige seriedade. Projetos estruturantes não podem ser tratados como peças de marketing político. O fiasco da Solatio deixa uma lição dura, porém necessária: não existe transição energética sem transição administrativa.
E essa, ao que tudo indica, ainda não começou.
Some-se a isso um padrão que já começa a saltar aos olhos: os projetos faraônicos de Rafael Fonteles se esfacelam como castelo de areia na Pedra do Sal. O Porto Piauí, de porto só tem mesmo o nome. Até hoje, só permitiu atracar despesas. Nenhum navio atracou. Nenhuma carga embarcada. Nenhum grão de soja ou minério foi exportado. O projeto da navegabilidade do Rio Parnaíba nem encalhou nas coroas do rio, foi levado pelas águas do velho monge como oferenda para Iemanjá. Pelo visto, o governo Rafael Fonteles vai chegar ao final ostentando apenas discurso, ou, nem isso.
Resta agora apenas saber qual será a narrativa oficial do governo. Porque, diante de mais esse fracasso retumbante, o Palácio de Karnak terá de apresentar uma versão palatável à opinião pública, uma história capaz de convencer o povo do Piauí de que não teve absolutamente nenhuma culpa no fiasco do hidrogênio verde. Alguém terá de ser responsabilizado, seja a empresa, seja o Ministério Público, seja o “contexto”, seja o “momento”.
Só não parece provável que a culpa recaia sobre quem vendeu o projeto como redenção econômica do Estado e o entregou como mais um castelo de areia levado pelo vento da realidade.

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