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Prefeito preso em flagrante: poder, intimidação e a sombra da milícia no RN

Fernando Damasceno é detido ao tentar destruir provas e passa a simbolizar a fronteira perigosa entre poder político e crime organizado

28/01/2026 às 10h21
Por: Douglas Ferreira
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Fernando de Canto de Moça foi preso em flagrante - Foto: Reprodução
Fernando de Canto de Moça foi preso em flagrante - Foto: Reprodução

O poder público voltou a sentar no banco dos réus no Rio Grande do Norte. Na manhã desta quarta-feira (28), o prefeito de Ielmo Marinho, na Grande Natal, Fernando Batista Damasceno, o Fernando de Canto de Moça (MDB), foi preso em flagrante durante a Operação Securitas, deflagrada pela Polícia Civil. A detenção não estava prevista nos mandados judiciais. Ela ocorreu no calor da ação policial, quando o chefe do Executivo municipal tentou se desfazer de dinheiro em espécie e de um aparelho celular, numa tentativa clara de ocultar provas e embaraçar a investigação.

O gesto, por si só, é revelador. Não se trata de um detalhe lateral, mas de um comportamento que reforça a gravidade das suspeitas que pesam sobre o prefeito. A Polícia Civil investiga Fernando Damasceno como líder de uma organização criminosa estruturada, com núcleo armado, voltada à intimidação de adversários políticos e à prática de ilícitos que extrapolam o campo da política tradicional e adentram o território da milícia privada.

As investigações tiveram início em 2023 e avançaram a partir de episódios que chocaram pela ousadia. Um deles envolve a entrada de homens fortemente armados na Câmara Municipal de Ielmo Marinho, sob o pretexto de segurança privada, mas, segundo os investigadores, com o objetivo real de intimidar opositores. Em fases anteriores da apuração, a polícia apreendeu um arsenal de armas e munições, inclusive de calibres restritos, como .40 e .45 — um dado que agrava ainda mais o quadro.

A operação desta quarta-feira visava aprofundar a coleta de provas: documentos, valores, armas e dispositivos eletrônicos. Foi justamente nesse momento que o prefeito acabou preso, flagrado ao tentar descartar dinheiro e celular, ambos recuperados e agora sob análise da polícia. A origem do numerário ainda não foi esclarecida oficialmente, tampouco o conteúdo do aparelho telefônico, que pode se tornar peça-chave para revelar conexões, ordens e a real dimensão da estrutura investigada.

Do ponto de vista jurídico, a prisão é em flagrante, pelos crimes de embaraço à investigação criminal e ocultação de provas. Não se trata, por ora, de prisão preventiva ou temporária, mas o caso está longe de se encerrar aí. A depender do que emergir das provas apreendidas, a situação pode evoluir para medidas cautelares mais severas, inclusive a conversão da prisão em preventiva.

Até o momento, o prefeito não apresentou uma defesa pública detalhada. O silêncio contrasta com a contundência das acusações e reforça o clima de incerteza política que se instala no município e no estado. Também chama atenção o fato de a investigação alcançar outras figuras: um vereador e um policial militar estão no radar das autoridades, evidenciando que o caso pode revelar uma rede mais ampla de relações espúrias entre poder institucional e força armada ilegal.

O episódio de Ielmo Marinho não é isolado. Ele expõe uma realidade preocupante: quando agentes eleitos, investidos da confiança popular, passam a ser investigados por liderar estruturas criminosas, o que está em jogo não é apenas um mandato, mas a própria integridade do Estado democrático. A tentativa de destruir provas não é só um ato ilegal; é um símbolo do medo da verdade.

Resta agora acompanhar os desdobramentos. A pergunta que ecoa é simples e incômoda: quantas outras estruturas semelhantes ainda operam à sombra do poder público, protegidas pelo cargo e pelo silêncio?

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