
O Brasil, de fato, não cansa de surpreender. Em um terreno onde a política e a administração pública caminham lado a lado, às vezes na linha de divisão, outras vezes além dela, surgiu mais um episódio que mistura gestão, poder e investigação criminal. No Rio Grande do Norte, a operação deflagrada pela Polícia Federal (PF) e pela Controladoria-Geral da União (CGU) para apurar supostas fraudes em licitações na área da saúde colocou uma das gestões municipais mais observadas do estado no centro de um turbilhão de especulações: a da Prefeitura de Mossoró, sob a liderança do prefeito Allyson Bezerra Costa, do União Brasil.
Antes de entrar na espiral de acusações, é importante lembrar o cenário político local: as pesquisas de intenção de voto e movimentações nos bastidores apontam Allyson Bezerra e Carlos Eduardo Xavier, secretário de Estado da Fazenda e provável candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), como os principais nomes na disputa pelo governo potiguar em 2026. Há também o ex-prefeito de Natal Álvaro Dias (sem partido/PSD), que se movimenta para entrar com força na corrida eleitoral. Todos devem apertar o cinto, porque começou oficialmente a chamada temporada de caça às bruxas.
Para quem ainda busca entender o impacto dessa operação em Mossoró, convém separar o joio do trigo em meio ao noticiário volátil e, por vezes, fragmentado. A investigação mira supostos esquemas de desvio de recursos públicos associados a fraudes em licitações para aquisição de insumos na saúde, uma área historicamente vulnerável por causa da urgência dos contratos e da alta rotatividade de fornecedores. As auditorias preliminares, com apoio técnico da CGU, identificaram, segundo termos oficiais, indícios de materiais não entregues, produtos fora de especificação e preços praticados acima dos valores de mercado.
A PF cumpriu 35 mandados de busca e apreensão no estado do Rio Grande do Norte, além de medidas cautelares e ações de bloqueio de bens relacionados aos investigados. Entre os alvos, além de empresas de fornecimento de equipamentos e insumos, aparece a administração municipal de Mossoró. Mas aqui mora a primeira reserva analítica necessária: não há, até o momento, indícios públicos de que o prefeito Allyson Bezerra seja investigado por crime cometido pessoalmente. A nota oficial de sua defesa afirma justamente que ele está colaborando com as investigações e que não foi afastado do cargo. Segundo a defesa, a medida teria sido baseada em diálogos envolvendo terceiras pessoas, sem relação direta com o chefe do Executivo municipal.
O fato, porém, de a Polícia Federal incluir a gestão de Mossoró nas diligências imediatamente reacendeu debates sobre a natureza da investigação: seria uma ação técnica, motivada por evidências robustas? Ou parte de um jogo político de desgaste de um eventual adversário competitivo? Afinal, em um Estado onde a sucessão do governo estadual está aberta, com a governadora Fátima Bezerra (PT) prestes a se desincompatibilizar para tentar disputar o Senado, o terreno político está instável. Curiosamente, os nomes da sucessão governamental ao Palácio de Despachos de Lagoa Nova, sede do Executivo estadual, têm sido cautelosos em relação à sucessão: o vice-governador declinou, optando por disputar a Assembleia Legislativa; o presidente da Assembleia Legislativa e outras lideranças de peso também não se lançaram à ocupar a cadeira a ser deixada por Fátima Bezerra. Para alguns analistas, esse vácuo de protagonismo ajuda a conferir ainda mais atenção à gestão de Mossoró como possível alternativa.
Há ainda outro aspecto que precisa ser analisado com cuidado: em um país democrático minimamente civilizado, uma boa gestão municipal, sobretudo no principal município do estado, serve como cartão de visitas para uma candidatura ao governo estadual. Mossoró, sob o comando de Allyson Bezerra, tem sido apresentada por seus apoiadores como exemplo de administração eficiente e inovadora. Essa avaliação positiva de gestão, somada à visibilidade que sua administração tem adquirido, pode incomodar rivais políticos que tradicionalmente dominam a cena potiguar.
Mas incomodar não justifica acusar. A PF e a CGU têm a atribuição técnica de investigar indícios de irregularidade, cruzar dados, ouvir testemunhas e coletar provas documentais. Até agora, os detalhes divulgados são bastante genéricos, o que abre espaço para diferentes leituras: a de que há um esquema efetivo a ser desbaratado ou a de que uma investigação técnica importante está sendo interpretada como instrumento de pressão política.
A diferença entre uma operação policial técnica e uma campanha de desgaste político é sutil, mas determinante. No primeiro caso, fala-se em evidências, laudos periciais, responsabilidade e responsabilização. No segundo, sobram narrativas, conjeturas e pressões de praça pública. Ao público cabe separar um do outro, sem ignorar o peso legítimo de apurações criminais, mas também sem antecipar julgamentos que correm sob sigilo e mecanismo processual próprio.
E o que diz Allyson Bezerra? Oficialmente, por meio da assessoria, o prefeito afirma que está à disposição das autoridades e que não foi alvo de medidas restritivas ou afastamento. Ele mantém foco na administração de Mossoró e afirma que a investigação se refere a processos que foram conduzidos por terceiros vinculados à municipalidade.
Restam, portanto, perguntas que demandam respostas claras: qual é a extensão do prejuízo apontado pelas auditorias? Quais contratos específicos estão sob suspeita, com quais fornecedores e para quais produtos? Há indícios de material superfaturado ou simplesmente não entregue? E, sobretudo, até que ponto a ação da Polícia Federal e da CGU segue critérios técnicos estritamente vinculados às evidências?
Nenhuma dessas perguntas tem, até o momento, resposta definitiva à disposição da sociedade. E, em tempos de pré-candidaturas em ebulição, o risco de que uma investigação legítima seja confundida, ou usada, como instrumento político cresce exponencialmente. O eleitor potiguar precisa ficar atento: uma coisa é a apuração técnica de irregularidades; outra é a politização precoce de um processo que deve ser, antes de tudo, transparente, isento e baseado em fatos.
A temporada de eleições chegou. E, com ela, a urgência de separar o que é fato, do que é conjectura; o que é investigação técnica, do que é caça às bruxas. Só assim a política potiguar, e o próprio Rio Grande do Norte, poderão transformar esse momento em oportunidade de fortalecimento institucional, e não em mais um capítulo de desgastes e narrativas avulsas.
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