
O Nordeste brasileiro assiste a uma escalada de violência que já não cabe nas estatísticas frias nem nos discursos protocolares. O crime organizado deixou de operar nas sombras e passou a agir à luz do dia, em praça pública, em velórios e até em cemitérios, como quem testa, diariamente, os limites do Estado, e descobre que eles são frágeis.
Quando se afirma que as facções criminosas desafiam o poder estatal, ainda há quem duvide. Mas os fatos falam mais alto que qualquer ceticismo. Expulsar moradores, tomar casas, invadir funerais e profanar cadáveres não são atos de delinquência comum. São gestos de domínio territorial, de intimidação simbólica e de afirmação de poder. É linguagem de guerra.
As ações do Primeiro Comando da Capital, PCC, e do Comando Vermelho, CV, espalharam-se pelo Nordeste como fogo em palha seca. No Ceará e na Bahia, as facções pintam e bordam, e não é força de expressão.
No Ceará, bairros inteiros e até distritos foram colocados para correr. Em cidades como Sobral, conjuntos habitacionais e condomínios de apartamentos foram esvaziados sob ameaça de morte. Moradores saíram com o que coube no porta-malas, escoltados pela polícia, não para permanecer, mas para fugir. É a inversão completa de papéis, o Estado acompanha a retirada, enquanto o crime ocupa.
As facções também despejam proprietários, se apropriam de casas e apartamentos e impõem regras próprias. Onde antes havia escritura, agora há medo. Onde havia porteiro, agora há vigia armado. É como se o condomínio tivesse mudado de síndico, e o novo gestor governa pelo terror.
Mas o avanço não parou na porta de casa. Ele atravessou a última fronteira do respeito humano. Vídeos que circulam nas redes mostram caixões incendiados durante velórios, episódios registrados no Ceará e na Bahia. Na comunidade Bonfim, em Trairi, um corpo de rival foi incendiado durante a despedida fúnebre. O recado não era para o morto, mas para os vivos.
O caso mais recente veio do sul da Bahia. No cemitério municipal de Coaraci, um sepultamento foi interrompido por homens armados que invadiram o local, dispararam e atearam fogo ao caixão. A cena provocou pânico, correria e silêncio, aquele silêncio pesado que fica quando o medo vence a palavra.
A vítima, identificada como Léo Bufinha, conhecido como Léo Dâmara, havia morrido dias antes em confronto com a polícia. A Polícia Civil investiga o caso e aponta disputa entre facções como principal linha. Até agora, ninguém foi preso.
As facções não estão apenas cometendo crimes. Estão encenando poder. Invadir velórios e cemitérios é como pichar o muro do Estado com tinta grossa, para que todos vejam. É dizer, sem metáfora, mandamos aqui. Se antes o crime disputava esquina, agora disputa símbolos. E símbolo, na política e na guerra, vale mais que território.
Há quem diga que isso é exagero, que sempre foi assim. Não foi. Quando o crime dita quem mora onde, quando decide quem pode ser enterrado em paz e quando transforma a polícia em escolta de mudança, algo quebrou. É como assistir a um jogo em que o árbitro ainda está em campo, mas o apito já não faz barulho.
O bom humor possível é o mais ácido, o Estado virou figurante numa peça dirigida pelo crime. E figurante, como se sabe, não muda o roteiro.
O avanço do crime organizado no Nordeste não é um problema localizado, nem episódico. É um projeto de poder em execução. Ignorar isso é apostar que o incêndio vai se apagar sozinho. A história mostra o contrário.
Enquanto o Estado hesita, as facções avançam. E, quando o medo ocupa a casa, a rua e o cemitério, a pergunta que fica não é mais quem manda, mas até quando.
SAÚDE MENTAL Maranhão inova ao colocar a saúde mental dos pesquisadores no centro da política científica
ACIDENTE DE ÔNIBUS Jovens atletas recebem despedida emocionante em Juazeiro do Norte após tragédia em Tauá
JOVENS ATLETAS Conheça os atletas de basquete que morreram em trágico acidente no Ceará Mín. 23° Máx. 32°