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Nordeste PROFANAÇÃO DO MORTO

O crime tomou a rua, a casa, a funerária e o cemitério

Facções expulsam moradores, profanam cadáveres e transformam o Nordeste em palco de uma guerra onde o Estado assiste, acuado, à ousadia crescente do PCC e do Comando Vermelho

20/01/2026 às 05h15
Por: Douglas Ferreira
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Caixão em chamas com o defunto dentro, numa ação ousada das facções na Bahia - Foto: Reprodução
Caixão em chamas com o defunto dentro, numa ação ousada das facções na Bahia - Foto: Reprodução

Quando o crime enterra o Estado, o avanço das facções no Nordeste

O Nordeste brasileiro assiste a uma escalada de violência que já não cabe nas estatísticas frias nem nos discursos protocolares. O crime organizado deixou de operar nas sombras e passou a agir à luz do dia, em praça pública, em velórios e até em cemitérios, como quem testa, diariamente, os limites do Estado, e descobre que eles são frágeis.

Quando se afirma que as facções criminosas desafiam o poder estatal, ainda há quem duvide. Mas os fatos falam mais alto que qualquer ceticismo. Expulsar moradores, tomar casas, invadir funerais e profanar cadáveres não são atos de delinquência comum. São gestos de domínio territorial, de intimidação simbólica e de afirmação de poder. É linguagem de guerra.

As ações do Primeiro Comando da Capital, PCC, e do Comando Vermelho, CV, espalharam-se pelo Nordeste como fogo em palha seca. No Ceará e na Bahia, as facções pintam e bordam, e não é força de expressão.

No Ceará, bairros inteiros e até distritos foram colocados para correr. Em cidades como Sobral, conjuntos habitacionais e condomínios de apartamentos foram esvaziados sob ameaça de morte. Moradores saíram com o que coube no porta-malas, escoltados pela polícia, não para permanecer, mas para fugir. É a inversão completa de papéis, o Estado acompanha a retirada, enquanto o crime ocupa.

As facções também despejam proprietários, se apropriam de casas e apartamentos e impõem regras próprias. Onde antes havia escritura, agora há medo. Onde havia porteiro, agora há vigia armado. É como se o condomínio tivesse mudado de síndico, e o novo gestor governa pelo terror.

Mas o avanço não parou na porta de casa. Ele atravessou a última fronteira do respeito humano. Vídeos que circulam nas redes mostram caixões incendiados durante velórios, episódios registrados no Ceará e na Bahia. Na comunidade Bonfim, em Trairi, um corpo de rival foi incendiado durante a despedida fúnebre. O recado não era para o morto, mas para os vivos.

O caso mais recente veio do sul da Bahia. No cemitério municipal de Coaraci, um sepultamento foi interrompido por homens armados que invadiram o local, dispararam e atearam fogo ao caixão. A cena provocou pânico, correria e silêncio, aquele silêncio pesado que fica quando o medo vence a palavra.

A vítima, identificada como Léo Bufinha, conhecido como Léo Dâmara, havia morrido dias antes em confronto com a polícia. A Polícia Civil investiga o caso e aponta disputa entre facções como principal linha. Até agora, ninguém foi preso.

As facções não estão apenas cometendo crimes. Estão encenando poder. Invadir velórios e cemitérios é como pichar o muro do Estado com tinta grossa, para que todos vejam. É dizer, sem metáfora, mandamos aqui. Se antes o crime disputava esquina, agora disputa símbolos. E símbolo, na política e na guerra, vale mais que território.

Há quem diga que isso é exagero, que sempre foi assim. Não foi. Quando o crime dita quem mora onde, quando decide quem pode ser enterrado em paz e quando transforma a polícia em escolta de mudança, algo quebrou. É como assistir a um jogo em que o árbitro ainda está em campo, mas o apito já não faz barulho.

O bom humor possível é o mais ácido, o Estado virou figurante numa peça dirigida pelo crime. E figurante, como se sabe, não muda o roteiro.

O avanço do crime organizado no Nordeste não é um problema localizado, nem episódico. É um projeto de poder em execução. Ignorar isso é apostar que o incêndio vai se apagar sozinho. A história mostra o contrário.

Enquanto o Estado hesita, as facções avançam. E, quando o medo ocupa a casa, a rua e o cemitério, a pergunta que fica não é mais quem manda, mas até quando.

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