
O Nordeste sempre soube reconhecer seus verdadeiros heróis. Alguns vestem chapéu de couro, outros empunham sanfona. Mas há um personagem silencioso, paciente e teimosamente resistente que ajudou a construir o sertão passo a passo, carga a carga, sol a sol: o jumento. Hoje, ironicamente, esse mesmo animal que sustentou o progresso da região corre sério risco de desaparecer, como se a história tivesse decidido descartar um de seus pilares mais fiéis.
Não por acaso, Luiz Gonzaga, o eterno Rei do Baião, eternizou em verso e prosa uma verdade simples e profunda na canção Apologia ao Jumento: “o jumento é nosso irmão”. A letra direta, quase pedagógica, toca onde mais dói e onde mais importa. Gonzagão não falava por metáfora vazia. Falava por vivência. O jumento foi, de fato, um “desenvolvimentista do sertão”, ajudando o homem na lida diária e, por consequência, ajudando o Brasil a se desenvolver quando não havia estrada, crédito rural, máquina nem motor.
Durante séculos, o jumento foi o verdadeiro motor do semiárido. Onde o caminhão não chegava, ele ia. Onde a estrada acabava, ele continuava. Onde o Estado nunca apareceu, o jumento já estava lá, levando água, comida, gente e esperança. Enquanto políticas públicas patinavam, ele seguia firme, sem discurso, sem propaganda e sem aplauso. Hoje, paga o preço da modernidade ingrata que substituiu o animal pela motocicleta e, mais recentemente, passou a vê-lo como mercadoria descartável.
Os números são tão cruéis quanto reveladores. Em pouco mais de duas décadas, a população de jumentos no Brasil despencou de cerca de 1,3 milhão para algo em torno de 78 mil animais. Uma queda superior a 90%. Se fosse um banco, estaria em liquidação. Se fosse uma empresa, em recuperação judicial. Mas como é um símbolo cultural e um ser vivo, corre o risco de virar apenas nota de rodapé da história.
A principal engrenagem dessa extinção anunciada atende pelo nome de mercado internacional. A crescente demanda pela produção de ejiao, um colágeno extraído da pele do jumento, transformou o animal em alvo de abates em larga escala. O mesmo bicho que carregou o sertanejo nas costas agora é carregado para o matadouro por uma lógica econômica que não reconhece passado, identidade nem afeto. É o progresso sem memória, aquele que avança atropelando tudo, inclusive quem o construiu.
Diante desse cenário, surgem reações que misturam ciência, sensibilidade e urgência. Pesquisadores, produtores rurais e defensores dos animais se mobilizam para evitar que o jumento vire apenas lembrança em letra de música. Há iniciativas que apostam em biotecnologia para produzir colágeno em laboratório, reduzindo o abate. Outras tentam reinserir o animal na economia local, seja na agricultura familiar, em terapias assistidas, na produção de leite de jumenta ou em projetos de manejo sustentável.
Mais do que preservar uma espécie, trata-se de preservar um modo de vida. Defender o jumento é defender a memória do Nordeste. É reconhecer que desenvolvimento não começa com aplicativo nem termina em planilha. Começa, muitas vezes, com quatro patas cansadas, um lombo curvado e uma resistência silenciosa que atravessa gerações.
Não é exagero dizer que o jumento fez mais pelo sertão do que muitos governos. Enquanto planos fracassaram, ele funcionou. Enquanto promessas evaporaram, ele ficou. Permitir sua extinção seria como rasgar páginas inteiras da história nordestina e fingir que nunca foram escritas.
O alerta de Gonzagão segue atual e urgente. O jumento é, sim, nosso irmão. E abandonar um irmão à extinção diz muito mais sobre nós do que sobre ele. O Nordeste, o Brasil e suas políticas públicas precisam decidir se querem seguir avançando como quem nega o passado ou se são capazes de aprender com ele. Porque, se o jumento desaparecer, não será apenas um animal a menos no sertão. Será um símbolo inteiro que deixará de existir.
E para encerrar com a letra da música de Gonzagão, “o jumento é bom, o homem é mau”. O jumento "é amigo do sertão".
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