
O Rio Grande do Norte vive um daqueles enredos que fariam inveja a qualquer roteirista de tragicomédia política. A possibilidade de vacância no comando do Executivo estadual, a partir de abril, escancarou um cenário tão constrangedor quanto revelador, nem os beneficiários diretos da linha constitucional de sucessão parecem dispostos a sentar na cadeira de governador. No tabuleiro potiguar, o poder deixou de ser prêmio e passou a ser mico, desses que ninguém quer segurar nem por 30 dias.
O caso chama ainda mais atenção quando comparado a situações recentes em outros Estados. No Piauí, por exemplo, o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Aderson Nogueira, assumiu o governo interinamente sem drama, sem suspense e sem cochichos de corredor. No RN, ao contrário, a sucessão parece filme de terror, todos sabem que alguém terá que entrar na casa, mas ninguém quer abrir a porta.
A governadora Fátima Bezerra, que deve deixar o cargo para disputar o Senado, entrega um governo financeiramente combalido, com atrasos, dificuldades para honrar compromissos básicos e um histórico recente de tensão com servidores e fornecedores. O vice, Walter Alves, sinaliza que prefere renunciar à sucessão e disputar uma vaga na Assembleia Legislativa. É como se dissesse, melhor remar num bote furado do que assumir o comando de um navio à deriva.
A partir daí, a Constituição é clara, o próximo da fila é o presidente do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte. Mas eis que surge o impensável. Segundo informações divulgadas pela jornalista Laurita Arruda, nos corredores do Judiciário potiguar circula a resistência do desembargador Ibanez Monteiro em assumir o Palácio de Despachos de Lagoa Nova, nem mesmo pelo curto período necessário para convocar eleições indiretas. A vice-presidente da Corte, Berenice Capuxu, também não demonstraria entusiasmo algum pela missão.
O resultado é uma cena digna de teatro do absurdo, magistrados evitando o Palácio como quem foge de um prédio interditado, políticos olhando para o teto e fingindo que não ouviram o próprio nome ser chamado. A cadeira de governador virou aquele banco do ônibus escolar que ninguém quer sentar porque sabe que vai sobrar problema.
É preciso dizer com todas as letras, linha de sucessão não é buffet onde se escolhe o que agrada. Não se trata de convite, mas de imposição legal. A Constituição não pergunta se o interessado está confortável, motivado ou preocupado com a própria biografia. Ela manda assumir. Qualquer tentativa de transformar obrigação institucional em escolha pessoal abre uma rachadura perigosa no edifício democrático.
Por isso mesmo, a hipótese de o Plenário do Tribunal de Justiça ter que realizar uma eleição interna apenas para definir quem assumirá temporariamente o governo soa como remendo improvisado em motor fundido. É juridicamente possível, mas politicamente vexatório. Passa a imagem de um Judiciário empurrado para o centro da arena política contra a própria vontade, algo que juízes, historicamente, evitam como o diabo foge da cruz.
Nos bastidores, o silêncio diz mais do que discursos. Se ninguém quer assumir, a pergunta que ecoa é simples e incômoda, o estrago nas contas públicas foi tão grande assim? O cenário herdado assusta a ponto de transformar o cargo máximo do Executivo em um fardo indesejável? Quando o poder perde o encanto, é sinal de que a realidade bateu à porta com força.
O Rio Grande do Norte vive hoje uma espécie de sucessão às avessas. Em vez da disputa natural pelo comando do Estado, há uma corrida para longe dele. Efeito do tsunami que atende pelo sobrenome Bezerra, do PT. O governo virou herança maldita, dessas que vêm com dívidas, processos, cobranças e pouco espaço para gestos simbólicos. É governar com o freio de mão puxado e o tanque na reserva.
Enquanto isso, o eleitor, figura central em qualquer democracia, só aparece como figurante silencioso, lembrado apenas quando chegar a hora do voto. Até lá, assiste a um jogo de empurra-empurra institucional que mistura medo, cálculo político e autopreservação.
No fim das contas, o episódio é mais do que uma curiosidade local. Ele revela o grau de desgaste do governo petista de Fátima Bezerra e expõe como a má gestão transforma o poder em peso morto. No RN, assumir o comando do Estado parece menos coroação e mais penitência. E quando até os desembargadores recuam, algo está muito fora do lugar.
Agora pense rápido e responda: quais as chances de Fátima Bezerra voltar ao Senado? É o que o povo potiguar se pergunta todo dia.
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