
A inauguração de um mata-burro no interior da Paraíba entrou para o folclore político nordestino com a força de um símbolo involuntário: quando a propaganda oficial atropela o senso de proporção, até o que é útil vira motivo de chacota. Foi exatamente isso que aconteceu no Sítio Boa Vista, zona rural de São Domingos (PB), quando a prefeita Adeilza Soares decidiu transformar uma pequena obra de rotina administrativa em cerimônia solene, com direito a gravação, discurso e postagem institucional.
O problema não está no mata-burro em si. Trata-se de uma estrutura simples, funcional, necessária para evitar a passagem de animais e garantir o tráfego em estradas vicinais. O equívoco começa quando algo corriqueiro, que deveria integrar a manutenção básica da zona rural, ganha status de grande feito administrativo, como se fosse uma ponte monumental ou uma rodovia estratégica. Aí, o que era infraestrutura vira caricatura.
O vídeo divulgado pela prefeitura mostra a prefeita ao lado da obra, acompanhada de assessores, vereadores aliados e pouquíssimos moradores. A cena, registrada com zelo publicitário, acabou produzindo o efeito contrário ao desejado: em vez de exaltar a gestão, virou munição para críticas e piadas nas redes sociais. A pergunta que ecoou foi simples e cruel: era mesmo necessário inaugurar um mata-burro?
No Nordeste, infelizmente, esse tipo de episódio não é exatamente novidade. A região já coleciona inaugurações pitorescas que desafiam o bom senso administrativo. No Rio Grande do Norte, a governadora Fátima Bezerra virou alvo de memes ao participar da inauguração simbólica de um cano de água. No Piauí, o ex-governador Wellington Dias esteve presente na inauguração de um semáforo em Luzilândia, evento que também entrou para o anedotário político local.
Some-se a isso prefeitos que cortam fita de quebra-molas, placas de sinalização ou pequenos reparos urbanos, como se estivessem entregando obras estruturantes. O resultado é sempre o mesmo: o riso fácil, a crítica feroz e a completa perda de foco sobre o que realmente importa em uma gestão pública.
No caso de São Domingos, a inauguração do mata-burro acabou engolindo qualquer outra ação que a prefeita pudesse apresentar como relevante. A obra, que poderia ser apenas mais uma melhoria discreta na zona rural, tornou-se o cartão de visitas de uma gestão caricaturada. O marketing exagerado transformou a prefeita em personagem de um episódio que ainda hoje circula como exemplo do que não fazer.
É verdade que o princípio da publicidade é constitucional e que gestores devem prestar contas de seus atos. Mas publicidade não é sinônimo de espetáculo, e transparência não exige solenidade para cada saco de cimento assentado. Governar também é saber diferenciar o que merece holofote do que pede apenas eficiência silenciosa.
Ao justificar a divulgação, Adeilza Soares afirmou que é preciso mostrar “tudo, do pequeno ao grande”. O argumento é compreensível, mas tropeça na forma. Mostrar não é teatralizar. Informar não é ridicularizar o próprio cargo. Em política, como na engenharia, excesso de exposição pode comprometer a estrutura.
No fim das contas, o mata-burro segue cumprindo sua função: impede a passagem de animais. Já a inauguração, essa ficará como metáfora de uma prática que insiste em sobreviver, a de confundir gestão pública com encenação. E, no Nordeste, onde os desafios são gigantescos, talvez seja hora de parar de inaugurar o trivial e começar a entregar o essencial, sem fita, sem palco e sem memes.
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