
A decisão do Instituto Federal do Piauí (IFPI) de afastar um professor após a exibição do filme O Lobo de Wall Street, no campus de Corrente, abre um debate que vai muito além da classificação etária de uma obra cinematográfica. O caso toca em um ponto sensível, e frequentemente mal compreendido, da educação: a liberdade de cátedra.
O filme, dirigido por Martin Scorsese e estrelado por Leonardo DiCaprio, retrata a ascensão e a queda de Jordan Belfort no mercado financeiro, expondo corrupção, ganância, excessos e decadência moral. Sim, há cenas de sexo, nudez e consumo de drogas. Mas reduzir a obra a isso é ignorar seu conteúdo central, uma crítica feroz ao capitalismo predatório e à ilusão do sucesso a qualquer custo.
O ponto que parece ter sido convenientemente ignorado no debate público é que o professor tem liberdade pedagógica para escolher métodos e recursos didáticos, inclusive filmes, desde que haja contextualização, mediação crítica e objetivo educacional claro. Um filme, independentemente da temática ou da classificação indicativa, não é exibido em sala de aula como entretenimento, mas como ferramenta de análise, reflexão e debate. Escola não é culto, nem catequese moral. É espaço de formação intelectual.
A reação institucional, no entanto, parece ter seguido o caminho mais curto e politicamente confortável, afastar primeiro, investigar depois. O tom da nota do IFPI, ao “repudiar quaisquer atos desta natureza”, antecipa um juízo de valor antes mesmo da conclusão do processo administrativo. Isso enfraquece a própria ideia de apuração isenta e reforça a sensação de punitivismo preventivo, tão em voga quando o tema envolve moralidade.
É legítimo discutir se os alunos tinham idade adequada? Sim. É necessário apurar se houve contextualização pedagógica? Sem dúvida. Mas tratar o episódio como se fosse, automaticamente, uma violência institucional é exagero, e cheira a moralismo seletivo. Especialmente quando conteúdos semelhantes circulam livremente em novelas, séries e redes sociais, sem qualquer mediação crítica.
Uma coisa é o debate pedagógico legítimo sobre temas sensíveis e absolutamente atuais, como corrupção, ganância, excessos, poder, dinheiro fácil e decadência moral, todos amplamente retratados na obra exibida e recorrentes na realidade que cerca os próprios alunos. Outra, bem diferente, é a distorção deliberada do conteúdo, quando estudantes recortam fragmentos do filme, descontextualizam cenas isoladas e as lançam nas redes sociais como se a obra fosse um panfleto sobre sexo ou libertinagem, e não uma crítica dura e incômoda à degradação ética de um sistema. Ao transformar um recurso pedagógico em espetáculo digital, perde-se o debate, empobrece-se a reflexão e cria-se uma narrativa rasa, moralista e enganosa, que nada contribui para a formação crítica, mas muito para o tribunal sumário das redes.
Ao afastar o professor sem esclarecer previamente qual foi a proposta pedagógica, o IFPI corre o risco de criar um precedente perigoso, o da autocensura docente. Professores, temendo sanções administrativas, podem passar a evitar temas complexos, obras densas e debates incômodos, exatamente aquilo que forma pensamento crítico.
Educação não se faz protegendo alunos do mundo real, mas ensinando-os a compreendê-lo, analisá-lo e questioná-lo. Filmes como O Lobo de Wall Street, quando bem trabalhados, não corrompem, alertam. O que realmente deveria preocupar não é a exibição de uma obra adulta, mas a tentativa de infantilizar o ambiente educacional e transformar o professor em mero reprodutor de conteúdos “seguros”.
Que o caso seja apurado, sim. Mas com equilíbrio, respeito à liberdade de cátedra e sem pré-julgamentos. Do contrário, o risco não é apenas punir um professor, mas empobrecer o ensino e institucionalizar o medo dentro da sala de aula.
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