
A educação brasileira, no atual governo, parece um canteiro de obras onde o barulho é constante, mas os prédios nunca ficam prontos. A promessa é grandiosa, os anúncios são frequentes, mas o resultado concreto ainda engatinha. Dados revelados pela Folha de S.Paulo mostram que apenas 12% das mais de 6.200 obras previstas foram efetivamente concluídas até março de 2026.
O número, por si só, já é preocupante. Mas ganha contornos ainda mais graves quando comparado ao tamanho da demanda. O Brasil acumula mais de 800 mil crianças à espera de uma vaga em creche. É como construir um hospital com filas do lado de fora e entregar apenas uma ala enquanto milhares aguardam atendimento.
O problema não está apenas na quantidade de obras concluídas. Está no ritmo. Dentro do chamado Novo PAC, uma das vitrines do governo, o desempenho é ainda mais simbólico. Das 2.443 novas escolas e creches previstas, apenas uma foi entregue. Uma única obra diante de milhares planejadas é como prometer uma frota inteira e entregar apenas um veículo.
A explicação oficial aponta para entraves administrativos e responsabilidade compartilhada com estados e municípios. De fato, o modelo descentralizado transfere a execução para prefeituras, enquanto o governo federal financia. Mas essa justificativa, embora tecnicamente válida, soa insuficiente diante do tamanho da frustração. É como um maestro culpar os músicos enquanto a orquestra inteira desafina.
Outro dado ajuda a entender o problema. Dos R$ 15 bilhões previstos para obras educacionais, apenas cerca de 8% foram efetivamente pagos. Ou seja, o atraso não está apenas na execução física, mas também no fluxo financeiro. Sem dinheiro na ponta, obra não sai do papel. Sem obra, política pública vira discurso.
O governo tenta reagir com o chamado Pacto de Retomada de Obras, uma iniciativa para destravar projetos herdados de gestões anteriores. A intenção é correta, mas o resultado ainda é tímido. Mais de mil obras seguem paralisadas ou canceladas. O cenário lembra uma tentativa de apagar um incêndio antigo enquanto novos focos continuam surgindo.
A pergunta central, portanto, não é apenas técnica. É política. Que prioridade é essa que anuncia milhares de obras, mas entrega uma fração mínima? Em governos, prioridade não se mede por discursos, mas por execução. E execução, nesse caso, está aquém do esperado.
Há também um problema de concepção. O modelo adotado depende de múltiplos atores, cada um com suas limitações técnicas e burocráticas. Quando tudo depende de todos, frequentemente nada acontece no tempo necessário. É como uma engrenagem com muitas peças desalinhadas, onde qualquer falha trava o sistema inteiro.
Mas seria apenas falta de capacidade administrativa? Ou há algo mais profundo? A resposta pode estar na combinação de fatores. Falta de planejamento detalhado, execução financeira lenta, dependência excessiva de entes locais e, sobretudo, ausência de pressão política contínua para que as obras avancem.
Educação exige persistência e prioridade real. Não pode ser tratada como um item secundário dentro de um pacote amplo de investimentos. Quando isso acontece, ela perde espaço para áreas mais visíveis ou mais rentáveis politicamente. Obras educacionais não geram o mesmo impacto imediato que grandes projetos de infraestrutura. E talvez seja exatamente por isso que avancem menos.
O resultado dessa equação é visível. Creches que não saem do papel, escolas inacabadas, quadras esportivas abandonadas. Cada obra parada é como uma porta fechada para uma criança. Cada atraso é um ano perdido que não volta.
O governo Lula 3 chegou com a promessa de reconstrução. No discurso, a educação ocupa lugar central. Na prática, os números contam outra história. Uma história de lentidão, de execução fragmentada e de resultados abaixo do esperado.
No fim, a realidade impõe uma reflexão incômoda. Não basta anunciar investimentos bilionários se eles não se transformam em salas de aula, carteiras ocupadas e professores atuando. Educação não se mede em projetos cadastrados, mas em obras concluídas.
E, até agora, o que se vê é um país que continua esperando. Como um aluno diante de uma escola que nunca termina de ser construída.
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