
A busca por empréstimos para financiar programas e políticas públicas nunca foi um tabu no Brasil, pelo contrário, é um instrumento legítimo, previsto em lei e amplamente utilizado pelos governadores para impulsionar obras, fortalecer investimentos e modernizar serviços. Dentro dos limites fiscais, é um recurso válido, necessário e até estratégico.
O problema começa quando esse mecanismo deixa de ser uma ferramenta complementar e passa a ser um pilar permanente de sustentação das contas estaduais, e é justamente isso que tem acontecido em boa parte do Nordeste. Nos últimos anos, a região se transformou em um terreno fértil para empréstimos sucessivos, altos, recorrentes e muitas vezes aprovados sem qualquer resistência legislativa.
A prática tornou-se tão comum que já acendeu um alerta em especialistas, técnicos e até em setores do próprio mercado financeiro. A pergunta que se impõe é simples, por que tantos governadores estão contraindo empréstimos em série mesmo diante dos recordes históricos de arrecadação? O Nordeste nunca arrecadou tanto, mas também nunca recorreu tanto ao crédito.
E o cenário fica ainda mais preocupante quando o empréstimo não financia novos investimentos, mas sim amortiza dívidas anteriores, ou seja, Estados que tomam empréstimo para pagar empréstimo, um ciclo que lembra o descontrole financeiro de famílias superendividadas. A diferença é que aqui não estamos falando de casas, mas de administrações públicas inteiras e das gerações futuras que herdarão essas dívidas.
Essa ciranda se tornou tão naturalizada que muitos gestores já tratam o endividamento como política pública, como se fosse obrigação do Estado viver permanentemente pendurado em novas linhas de crédito. É o caso de quase todos os Estados do Nordeste, onde o volume de operações cresce ano após ano, quase sempre com explicações genéricas, metas imprecisas e promessas amplas de “desenvolvimento”.
A grande contradição aparece no centro do debate, o Nordeste é realmente tão pobre a ponto de depender dessa bola de neve financeira? Ou o problema está na forma de gerir, planejar e executar os recursos? A região enfrenta desigualdades históricas, mas também recebeu, desde 2023, uma sequência impressionante de aumentos de arrecadação. Então, se o dinheiro está entrando como nunca, por que sai tão rápido? Para onde está indo essa fortuna?
No Piauí, a situação é ainda mais alarmante. A Assembleia Legislativa acaba de autorizar o governo Rafael Fonteles a contrair mais de R$ 8 bilhões em novos empréstimos, uma cifra gigantesca mesmo para Estados mais robustos fiscalmente. Para um Estado de arrecadação modesta, com limitação estrutural de receita própria e forte dependência de transferências federais, é um salto que beira a temeridade.
O paradoxo é evidente, o governo comemora superávits, recordes de receita e expansão econômica, mas simultaneamente recorre a volumes inéditos de endividamento. É como se, na prática, o Tesouro estadual reconhecesse que a arrecadação não é suficiente para manter o ritmo de obras e programas anunciados, ou, pior, estivesse tomando crédito para cobrir despesas correntes disfarçadas de investimentos.
Será que o Piauí, e por extensão todo o Nordeste, está entrando numa rota perigosa em que crescimento só é possível à base de empréstimos? Essa lógica, além de insustentável, compromete as futuras gerações, cria fragilidade fiscal e coloca em xeque a capacidade do Estado de honrar compromissos nos próximos anos. No ritmo atual, qualquer abalo econômico, queda de receita ou mudança de regra pode empurrar o Estado para uma situação de quase insolvência.
E se o cenário de 2026 repetir o apetite da atual legislatura, o pior pode acontecer. Basta que mais uma rodada agressiva de empréstimos seja aprovada para empurrar Estados como o Piauí para um colapso fiscal. O sinal de alerta já está aceso, mas pouca gente parece disposta a enxergá-lo. Governos seguem confiando em novas operações, como se o crédito fosse inesgotável, e Legislativos continuam carimbando autorizações sem qualquer questionamento técnico.
Aliás, o comportamento das Assembleias Legislativas é parte essencial desse problema. A leniência dos parlamentos estaduais tem permitido que governadores arquem com dívidas bilionárias sem apresentar estudos sérios de impacto, sem detalhar cronogramas e sem prestar contas claras do uso dos recursos. Em muitos Estados do Nordeste, o Legislativo virou apenas uma sala de carimbos, sempre aberta, sempre alinhada e sempre pronta para aprovar o que vier do Executivo.
O Nordeste precisa se perguntar, com urgência, se é possível crescer sem comprometer o futuro de seus filhos. O desenvolvimento não exige, necessariamente, endividamento ilimitado. Exige gestão, eficiência e responsabilidade. Sem isso, até os maiores empréstimos se transformam em passivos que sufocam o presente e asfixiam o amanhã. O Piauí é hoje o exemplo mais visível dessa encruzilhada. A questão é, quem terá coragem de frear essa avalanche antes que seja tarde demais?
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