
Nada dói mais no orgulho de um piauiense atento ao cenário econômico do que ver São Paulo, Santa Catarina, Minas Gerais e Goiás dispararem na frente enquanto nós seguimos numa eterna caminhada de passos curtos, quando não andamos para trás. E antes que alguém tente justificar tudo com o velho mantra das diferenças regionais, basta virar a cabeça para o lado e olhar o vizinho Ceará, que há 40 anos ostentava indicadores semelhantes aos nossos e hoje parece morar em outro planeta econômico.
O Estado virou um oásis de produtividade, organização e modernização, tudo aquilo que o Piauí ainda insiste em tratar como promessa, meta, intenção, planejamento, rascunho. Enquanto nós tropeçamos em burocracias, incapacidade administrativa e projetos que nunca passam do PowerPoint, o Ceará junta indústria, comércio, serviços e turismo num combo que faz inveja até aos gigantes nordestinos Bahia e Pernambuco.
E agora vem o golpe final: um polo automotivo moderno, eletrificado, sustentável e pronto para exportação, fincado exatamente onde funcionava a antiga fábrica da Troller. É a terceira planta automotiva inaugurada no Brasil em poucos meses, e o Ceará garantiu a dele. Nós por aqui? Alguém viu alguma montadora planejando algo no litoral piauiense? Pois é.
O novo polo em Horizonte nasce na trilha da neoindustrialização brasileira e se encaixa como uma luva na tendência global dos veículos elétricos e híbridos. Enquanto muitos estados ainda discutem a transição energética, o Ceará já produz energia eólica e solar em abundância, o suficiente para atrair qualquer empresa séria comprometida com metas de carbono, ou simplesmente cansada da instabilidade energética do resto do País.
O presidente Lula da Silva, na inauguração, bem lembrou que o Brasil já produziu 3,6 milhões de carros por ano e hoje luta para voltar à rota do crescimento. Mas a reflexão mais incômoda não dita no palanque é outra: por que alguns Estados conseguem fazer a roda girar e outros parecem condenados à eterna marcha lenta? Por que o Ceará virou vitrine e o Piauí continua sendo mostrado no balcão das oportunidades perdidas?
O economista Célio Fernando crava que o polo reforça a desconcentração regional e recoloca o Brasil no mapa da indústria mundial. Mas o recado nas entrelinhas é direto: uma montadora só se instala onde enxerga ambiente de negócios, infraestrutura, estabilidade e futuro. O Ceará ofereceu tudo isso. O Piauí ofereceria o quê?
Com capacidade inicial para 10 mil veículos elétricos em 2026 e funcionamento multimarcas, a planta de Horizonte é só o começo. Fornecedores devem vir na esteira, novas linhas podem ser incorporadas e uma cadeia inteira de metalmecânica, eletrônica e serviços especializados deve se formar. O Ceará planta agora uma semente cujo fruto será colhido por décadas.
E, enquanto isso, no Piauí, comemoramos cada posto de gasolina inaugurado como se fosse um marco industrial. A verdade dói, mas liberta: estamos ficando para trás porque insistimos em caminhar como se o mundo se movesse no nosso ritmo. Deve ser inquietante, e causar uma frustração exponencial para quem detém o poder no Estado, assistir, apenas como espectador, o Ceará atrair investimentos reais e concretos todos os dias.
O Polo Automotivo do Ceará não é apenas uma fábrica. É um espelho, e ele reflete duas realidades: a de um Estado que decidiu ser grande e a de outro que parece satisfeito em continuar pequeno.
Resta saber se teremos coragem de olhar fundo nesse reflexo.
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