
O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro avançou míseros 0,1% entre o segundo e o terceiro trimestre de 2025, um número que, em termos práticos, significa quase nada, e que só não virou retração por detalhe estatístico. É o sinal de uma economia em estado de letargia, que vinha desacelerando ao longo do ano e poderia, com um pouco mais de vento contrário, já ter caminhado para trás.
Os dados oficiais do IBGE deixam claro onde está o nó: serviços, setor com maior peso no PIB, praticamente não cresceu (+0,1%), enquanto a indústria avançou 0,8% e a agropecuária 0,4%. Na ótica da demanda, o consumo das famílias subiu só 0,1% e o investimento (formação bruta de capital fixo) cresceu apenas 0,9%, insuficiente para impulsionar um salto sustentável da economia. Esses números explicam por que a recuperação parece trôpega e frágil.
Traduzindo para o linguajar do dia a dia: o consumidor mal anda, o empresário evita puxar o gatilho do investimento e o setor de serviços, que emprega a maioria, se arma de cautela. Quando o consumo e os serviços não andam, a economia fica refém de resultados episódicos (safras agrícolas, exportações pontuais) que mascaram fragilidade estrutural. O alerta é simples: crescimento “0,1%” é crescimento de fim de feira — aparece, mas não convence.
Uma das botas que prende o pé da economia chama-se taxa de juros real elevada. O Banco Central manteve a Selic em patamar historicamente alto neste ano, 15% ao ano em reuniões recentes, e a combinação de juros altos com custo de crédito caro pesa sobre decisões de investimento e consumo durável. Em linguagem econômica: crédito caro estrangula investimento. É um pé de chumbo para qualquer tentativa de aceleração.
Alguns analistas e mercados já reagiram: o resultado fraco reforçou apostas de que o BC pode começar a aliviar a taxa no início de 2026, mas isso é uma faca de dois gumes. Um eventual corte deveria vir acompanhado de sinais claros de responsabilidade fiscal e medidas que retomem o apetite privado por investir, o que ainda não aconteceu de forma convincente. Enquanto isso não vier, o “alívio monetário” terá efeito limitado.
E onde o governo federal, o atual mandatário do terceiro mandat, erra? A explicação não está em um único erro, mas numa soma de escolhas: 1) política fiscal que transmite incerteza, com projetos que geram ruído sobre prioridades e gastos; 2) ausência de reformas estruturais contundentes que elevem produtividade; 3) programas e anúncios que, por vezes, pouco se traduzem em investimento privado real. O resultado é uma confiança que não cresce, e sem confiança, investimento não volta.
Outro gargalo evidente é a composição do crescimento: dependeu demais de fatores pontuais (agro e exportações em determinados meses) e menos de uma base ampla liderada por investimento e serviços. A taxa de investimento, 17,3% do PIB no 3T25, ficou praticamente estagnada e abaixo do que seria necessário para um ciclo virtuoso de crescimento em médio prazo. Sem investimento, a economia não cria escala, inovação ou empregos formais suficientes.
As consequências práticas desse “quase nada” no PIB batem no bolso do cidadão e na expectativa do empresariado: geração de empregos mais lenta, avanço tímido da massa salarial real, menor arrecadação fiscal sem aumento automático de serviços, e risco de adiamento de projetos de infraestrutura. Empresas que poderiam contratar ou ampliar produção seguram a respiração; o mercado de trabalho reage com atraso. Em suma: o crescimento anêmico traduz-se em oportunidade perdida para reduzir desigualdade e ampliar inclusão produtiva.
No plano externo, a economia deu sinais mistos: exportações tiveram algum fôlego, mas a competitividade ainda sofre com desequilíbrios setoriais e choques (como tarifas e barreiras externas em certos mercados). A dependência de demanda externa pontual não substitui uma política industrial e de inovação que torne o Brasil menos vulnerável a choques e mais atraente para capital produtivo.
Resumo cruel: o Brasil “saiu do lugar”, mas só de um dedinho. O país continua distante de uma retomada vigorosa porque juros altos, investimento fraco, incerteza fiscal e ausência de reformas estruturais montam uma muralha que emperra a economia. O crescimento de 0,1% não é apenas uma cifra medíocre: é o retrato de escolhas políticas (e omissões) que custam empregos e renda.
O que precisa ser feito, em linguagem direta? Reduzir a incerteza fiscal com metas claras e regras críveis; calibrar a política monetária com compromisso técnico e previsibilidade; destravar investimentos públicos-privados, com PPPs e projetos que realmente atraíam capital; e acelerar reformas microeconômicas que elevem produtividade (infraestrutura logística, regulação eficiente, estímulo à inovação). Sem isso, cortes de juros sozinhos serão apenas um lenço num rosto que precisa de cirurgia.
Por fim, fica o recado às lideranças: o país passou raspando de uma recessão setorial, e não tem tempo a perder. Crescer 0,1% em pleno 3º trimestre de 2025, quando o mundo busca sincronia e recuperação, é vexame tático e estratégico. A economia pede medidas que deem confiança, não só anúncios. Sem coragem e agenda crível, o Brasil continuará a caminhar, de forma humilhantemente lenta, enquanto outros avançam.
Especialistas e economistas mais atentos chamam a atenção para um detalhe: o negacionismo do governo. Enquanto a equipe econômica acredita e divulga incessantemente que a economia vai bem, o Brasil real flerta com um quadro de estagnação. Assim, é difícil avançar, pois acredita-se errôneamente que está tudo bem, quando está tudo, quase mal.
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