
O velório de Gerson de Melo Machado, o “Vaqueirinho”, expôs de forma brutal aquilo que o Brasil insiste em não enxergar: algumas vidas simplesmente nunca tiveram a chance de pertencer. O corpo de um jovem de 19 anos, morto de maneira trágica após invadir o recinto da leoa Leona, chegou ao cemitério acompanhado apenas por sua mãe, destituída do poder familiar há mais de dez anos, e por uma prima. Nenhum outro parente. Nenhum amigo. Nenhuma rede de apoio. Nenhum representante do Estado que o acompanhou em centenas de páginas de relatórios, mas nunca foi capaz de garantir proteção real. O silêncio ao redor do caixão dizia mais do que qualquer discurso.
Enquanto dois funcionários preparavam a sepultura, poucas pessoas observavam de longe, em curiosidade mórbida. Não era uma despedida coletiva, não era um ritual de acolhimento. Era a imagem concreta de uma vida que passou à margem. A mãe, marcada pela própria doença e pelo abandono, chorava sem compreender completamente o que estava acontecendo. A prima tentava consolar, mas sua presença era mais simbólica do que efetiva. Ali, diante de uma cova rasa, o destino de Vaqueirinho se encerrava exatamente como havia começado, sozinho, desassistido e invisível.
O cortejo curto, quase silencioso, expôs a negligência estrutural que acompanhou o jovem por toda a vida. As instituições que deveriam ter garantido seu desenvolvimento, sua saúde, sua segurança e sua dignidade não enviaram sequer uma coroa de flores. Não houve representante de abrigo, conselheiro, psicólogo, assistente social, juiz ou promotor. A ausência coletiva transcendeu o desrespeito, ela foi, por si só, um documento histórico. O Estado, sempre tão presente nos autos, simplesmente evaporou quando deveria ao menos reconhecer sua parcela de responsabilidade.
Chama atenção que o enterro de Gerson tenha sido mais um ato burocrático do que um rito de despedida. Durou poucos minutos. Não houve oração, música, homenagem ou palavra de despedida além do choro interrompido da mãe. A pressa, o silêncio e a ausência de gestos simbólicos reforçaram a sensação de que se tratava de um corpo sem biografia, de uma vida sem valor social. E isso, mais do que qualquer relatório técnico, revela o nível de desumanização ao qual ele foi submetido desde a infância.
O impacto emocional do sepultamento vai muito além do drama individual. Ele escancara a falência de um país que falhou com Vaqueirinho em absolutamente todos os níveis, assistência social, saúde mental, abrigamento, adoção, políticas públicas, segurança, justiça. Tudo o que faltou em vida também faltou na morte. E esse detalhe é devastador. O último ato da existência de Gerson foi um espelho cruel da trajetória que ele percorreu, invisível para o Estado, descartável para a sociedade, incômodo para as instituições.
No fim, a terra coberta sobre o caixão fechou mais do que uma sepultura. Fechou um ciclo de abandono que começou com a perda do poder familiar, atravessou abrigos, ruas, crises psicóticas, relatórios ignorados, diagnósticos tardios e uma morte que poderia, e deveria, ter sido evitada. O velório solitário não foi apenas comovente. Foi uma denúncia. E a pergunta que fica, diante de uma cova cercada por quase ninguém, é simples e perturbadora: quem matou Vaqueirinho? A leoa apenas executou o capítulo final.
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