
O governo Lula da Silva conseguiu desagradar, mais uma vez, exatamente quem diz defender: a classe trabalhadora. A revisão para baixo da projeção do salário mínimo de 2026, que passou de R$ 1.631 para R$ 1.627, pode parecer um detalhe técnico para quem ganha supersalários em Brasília, mas para milhões de brasileiros que contam centavo por centavo no carrinho de compras, não é detalhe, é drama.
A justificativa oficial é a desaceleração da inflação. Tecnicamente, é verdade: o cálculo do piso inclui a variação do INPC, e uma inflação menor implica correção menor. Mas essa explicação não resolve a pergunta essencial: por que justamente o salário mínimo precisa ser o alvo do ajuste, enquanto o governo se comporta como se o caixa fosse infinito para outras áreas?
Lula governa como alguém que nunca precisou fazer supermercado com dinheiro contado. Seu governo torra bilhões em despesas improdutivas, viagens internacionais, perdão de dívidas de ditaduras amigas e manutenção de privilégios da elite estatal. Mas quando chega a hora de “equalizar contas”, mira exatamente no único ponto que não deveria ser tocado: o bolso de quem ganha menos.
É impossível não notar a contradição. Um governo que cria ministérios como quem coleciona figurinhas, que banca uma máquina pública inchada e gastadora, que mantém supersalários de servidores do topo da pirâmide, agora decide economizar na única esfera em que o corte produz dor social imediata. Como explicar isso politicamente?
O impacto no Orçamento, segundo o Ministério do Planejamento, será sentido sobretudo nas despesas indexadas ao mínimo, como aposentadorias, pensões e seguro-desemprego. Em outras palavras, o ajuste recairá novamente sobre trabalhadores, aposentados e vulneráveis. Brasília corta onde dói, mas só para quem não tem lobby, bancada ou sindicato forte para protegê-lo.
E por que não cortar nos privilégios? Por que não reduzir supersalários? Por que não enxugar a administração federal, hoje uma das mais caras do mundo? Por que não limitar viagens internacionais que produziram mais fotos do que resultados objetivos? Por que o governo tem dinheiro para financiar ditaduras amigas, mas não para repor R$ 4 no salário de quem acorda às 5h da manhã para trabalhar?
A resposta é simples: porque é fácil cortar de quem não reage. O trabalhador comum não tem força organizada para barrar retrocessos. O alto funcionalismo, sim. As corporações estatais, sim. Os aliados políticos, muito mais ainda.
O governo tenta se esconder atrás da planilha da inflação, mas a política econômica revela escolhas morais. E a escolha de Lula, mais uma vez, é nítida: punir quem ganha menos para preservar a máquina cara que sustenta seu projeto de poder.
O fato de o governo não ter sugerido ao Congresso cortes proporcionais nos gastos apenas escancara outra verdade: não falta dinheiro; falta prioridade. O orçamento público é um espelho da alma política de um governo. E o que se vê refletido, hoje, é um Estado perdulário, generoso com castas privilegiadas e implacável com o povo que carrega o país nas costas.
Enquanto Brasília vive no luxo, o trabalhador verá, mais uma vez, seu orçamento doméstico encolher. É assim que o governo Lula retribui quem acreditou em promessas de defesa da classe trabalhadora, cortando no ponto mais sensível: o salário mínimo.
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