
A língua insiste em nos pregar peças: um substantivo que denota duas pessoas costuma despertar a tentação de plural. Mas o português tem regras firmes, e um jornalismo responsável exige que as sigamos para não transformar informação em imprecisão. Casal de empresários é atropelado segue a regra básica de concordância: o núcleo do sujeito é casal, substantivo coletivo no singular; portanto o verbo deve concordar no singular.
A confusão nasce do bom senso do cidadão comum: visualiza dois corpos, dois nomes na matéria, e naturalmente traduz a ação para o plural, “foram atropelados”. Esse raciocínio visual é compreensível, humano, mas gramaticalmente falacioso. A norma culta dá prioridade ao núcleo sintático do sujeito, não ao número de indivíduos que ele engloba. Assim como se diz “o grupo aprovou a proposta” e não “o grupo aprovaram”.
Existem, porém, situações em que o plural se torna aceitável ou até preferível: quando o foco recai sobre os indivíduos e não sobre o coletivo. Considere: “Os empresários, um casal, foram atropelados”. Aqui o sujeito é os empresários (plural) e a concordância muda. Ou ainda: “Casal de empresários, ambos com 42 anos, foram encontrados mortos”, quando a construção desloca o sujeito para uma expressão que enfatiza os membros. A alternância é estilística, mas exige cuidado: não confunda licença estilística com erro.
O jornalismo tem uma responsabilidade extra: além de seguir a gramática, deve antecipar a leitura do público. Casal de empresários é atropelado é correto; contudo, para evitar ambiguidade e desconforto (especialmente em manchetes de tragédias), o revisor consciente pode optar por reescrever: “Dois empresários, um casal, são atropelados” ou “Casal de empresários é atropelado", mudança preserva a correção e, ao mesmo tempo, dá clareza imediata.
Outros exemplos emblemáticos mostram a mesma dinâmica e ajudam a fixar a regra: “O elenco chega hoje” (núcleo: elenco, singular) versus “Os atores chegam hoje” (núcleo: atores, plural). “Um bando de pássaros sobrevoa a praça” (correto) não se transforma em “bando... sobrevoam” apenas porque há vários pássaros. Compare também “A multidão aplaudiu”, o verbo no singular concorda com o núcleo coletivo.
Há, ainda, formas híbridas que confundem leitores e revisores apressados: expressões como “metade dos jornalistas” costumam admitir flexibilidade, “metade dos jornalistas sentiu” ou “metade dos jornalistas sentiram”, dependendo do enfoque; mas com coletivos estabelecidos (casal, grupo, comissão, multidão) a tendência normativa é proteger o singular. A clareza textual e a coerência lógica devem guiar a escolha.
Conclusão provocativa: a língua não é uma gaiola que estrangula a expressão, é um mapa. Saber qual trilha seguir (singular ou plural) transforma frases ambíguas em relatos precisos. Para o professor de português, Washington Ramos, “em redação, prefira o rigor: mantenha ‘Casal de empresários é atropelado’ quando o sujeito for o coletivo; escolha o plural apenas quando o sujeito real ou a ênfase recair sobre os indivíduos”.
E quando a notícia envolve violência, a opção mais humana e explícita costuma ser a que reduz margem para mal-entendidos: diga quem, quantos e como, sem deixar a gramática de lado.
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