
A revelação de que o Grupo Mateus superavaliou seus estoques em R$ 1,1 bilhão reacendeu um alerta antigo sobre os controles internos da companhia. A empresa reconheceu que erros no cálculo do custo médio das mercadorias inflaram os balanços de 2024, reduzindo o estoque de R$ 6 bilhões para R$ 4,9 bilhões. A confusão derrubou o patrimônio líquido em quase R$ 700 milhões e fez a ação acumular queda superior a 14% nos últimos pregões, um tombo equivalente a R$ 1,9 bilhão em valor de mercado.
Os problemas não surgiram agora. Documentos enviados à CVM mostram que, já em 2020, a então auditora Grant Thornton apontava 42 falhas moderadas nos controles do Mateus, incluindo a falta de acompanhamento adequado do custo histórico de estoque. A partir de 2022, porém, essas deficiências deixaram de aparecer nos formulários da companhia. A nova auditoria, Forvis Mazars, assumiu o trabalho neste ano, justamente enquanto a empresa revisava seus números e mudava a política de inventário, sem fazer ressalvas públicas sobre o tema.
A situação ficou ainda mais sensível após a teleconferência com analistas na sexta-feira (14). A diretoria admitiu perdas operacionais relevantes, furtos dentro das lojas e inventários incompletos, citando casos de funcionários que registravam produtos caros com códigos de itens mais baratos, como a “calabresa” usada como exemplo pela gestão. O grupo também revelou que algumas unidades chegaram a ficar até dois anos sem inventário físico. A resposta do mercado foi imediata: além de criticar a falta de clareza, analistas apontaram dificuldade em entender a origem exata dos erros e temem ajustes futuros.
Entre as possíveis causas do descontrole no custo médio, especialistas citam erros tributários, especialmente no cálculo de ICMS e PIS em diferentes estados e falhas na contabilização de bonificações da indústria, problema que já afetou outras varejistas. Para gestores, o Mateus colhe agora parte do efeito de uma expansão acelerada, combinada com sistemas frágeis e processos inconsistentes. A empresa afirma que está reforçando a governança, ampliando inventários e adotando um sistema mais robusto de rastreamento de mercadorias, mas o mercado segue cético: os números ainda precisam provar que o ajuste veio para ficar.
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