
A política externa brasileira acordou nesta semana com um presente inesperado: Donald Trump anunciou a retirada da taxação de 40% sobre dez produtos brasileiros. Em Brasília, o governo comemorou como se tivesse conquistado o Santo Graal da diplomacia comercial, discursos inflamados, postagens triunfalistas e, claro, a narrativa de que tudo isso foi fruto de “intenso diálogo” e “habilidosa negociação”.
Pois bem. Hora de separar fato, fantasia e marketing político.
Vamos começar lembrando uma verdade inconveniente: decisões econômicas tomadas por presidentes americanos raramente têm como motivação “agradar o Brasil”. Os Estados Unidos não acordam pela manhã pensando na balança comercial de Goiás, no agronegócio do Paraná ou na demanda por aço do Espírito Santo. Eles agem conforme suas próprias conveniências. Sempre foi assim — com republicanos, democratas, liberais ou protecionistas.
E, neste caso, não é diferente.
A retirada da tarifa atende a dois interesses muito claros:
Redução de custos internos nos EUA, especialmente em setores que dependem de insumos importados, e que não querem pagar mais caro para produzir. Empresários americanos reclamaram. E quando empresários americanos reclamam, presidentes americanos escutam.
Ajuste do fluxo comercial para aliviar pressões inflacionárias. Produtos brasileiros, em muitos casos, são simplesmente mais competitivos. E competitividade é algo que nenhum governo americano trata como inimigo.
Não há heroísmo diplomático brasileiro nisso. Há pragmatismo norte-americano.
Mas Brasília é craque em transformar coincidência em conquista. A comunicação oficial fez parecer que Donald Trump acordou inspirado após uma conversa iluminada com a diplomacia brasileira. E, claro, decidiu sozinho que “o Brasil merece um desconto”.
A versão real é muito mais simples: os EUA precisam mais dos produtos brasileiros do que o governo brasileiro precisa de crédito político. Se a taxação atrapalha a economia americana, ela cai. Ponto.
E o pedido do governo brasileiro? Eis outra surpresa: pedidos brasileiros sempre são feitos, mas raramente são o fator decisivo. Washington não age por súplicas, mas por cálculos.
Se o Brasil tivesse realmente “virado o jogo”, veríamos concessões mais amplas, negociações equilibradas ou ajustes estratégicos. Aqui, vimos apenas o óbvio: os EUA eliminaram uma tarifa que atrapalhava… os próprios EUA.
Para os Estados Unidos: racionalidade econômica.
Para o Brasil: uma ótima oportunidade de marketing político interno.
Para o governo brasileiro: uma chance rara de comemorar algo que aconteceu apesar dele — não por causa dele.
Para o cidadão comum: preços mais competitivos e algum ganho direto na economia exportadora.
Para a narrativa oficial: uma vitória. Sempre é. Mesmo quando não é.
No fim, o episódio apenas reforça uma velha máxima: na diplomacia internacional, ninguém dá nada a ninguém - muito menos os americanos.
Se houve vitória, ela pertence à lógica de mercado. Mas, claro, isso não rende manchete bonita.
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