
Os alertas estavam todos lá. A história do mercado financeiro brasileiro, como diria Marx, repetindo-se como farsa ou tragédia, sempre carregou capítulos de instituições que surgem do nada, crescem rápido demais e desabam deixando um rastro de prejuízos. O caso do Banco Master, liquidado pelo Banco Central e investigado pela Polícia Federal, apenas encena novamente um roteiro velho conhecido.
O Brasil está repleto de exemplos de instituições que venderam “gato por lebre”, seduzindo investidores com o velho discurso do dinheiro fácil e dos juros generosos. O espantoso é que, mesmo com décadas de escândalos, golpes e liquidações traumáticas, empresas, financistas e até fundos de pensão continuam caindo no canto da sereia, como se o setor financeiro fosse regido por milagres, e não por matemática, risco e responsabilidade.
Porque, no fim das contas, quando há “vantagem demais”, há esquema. E quando há esquema, há tragédia.
O Ministério da Previdência Social confirmou que 18 fundos de pensão estaduais e municipais investiram juntos R$ 1,87 bilhão no Banco Master, entre outubro de 2023 e dezembro de 2024.
O caso mais grave é o do Rio de Janeiro, com R$ 970 milhões aplicados. O Amapá aparece logo após, com R$ 400 milhões. Os demais aportes se espalham por municípios de vários Estados, revelando não apenas o tamanho do problema, mas o alcance nacional da exposição ao risco.
Pior: os valores não serão ressarcidos pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que cobrirá apenas os investimentos de até R$ 250 mil de pessoas físicas.
Os fundos de pensão, que administram recursos destinados às aposentadorias e pensões de servidores públicos, entram na lista de credores da massa falida. Ou seja: podem nunca recuperar o dinheiro.
E quando o fundo quebra, quem paga a conta? Sempre o mesmo: o trabalhador, que vê a própria aposentadoria ser reduzida, adiada ou reestruturada.
O drama atual lembra episódios vividos na década passada, quando fundos ligados a grandes estatais - Postalis (Correios), Previ (Banco do Brasil), Funcef (Caixa) - afundaram bilhões em investimentos ruinosos, muitos deles influenciados por pressões políticas, má gestão e promessas financeiras improváveis.
O que mudou desde então? Pouco.
O que se repetiu? Quase tudo.
AP: R$ 400 milhões
AM: R$ 50 milhões
RJ: R$ 970 milhões
Angélica (MS): R$ 2 milhões
Aparecida de Goiânia (GO): R$ 40 milhões
Araras (SP): R$ 29 milhões
Cajamar (SP): R$ 87 milhões
Campo Grande (MS): R$ 1,2 milhão
Congonhas (MG): R$ 14 milhões
Fátima do Sul (MS): R$ 7 milhões
Itaguaí (RJ): R$ 59,6 milhões
Jateí (MS): R$ 2,5 milhões
Maceió (AL): R$ 97 milhões
Paulista (PE): R$ 3 milhões
Santa Rita D’Oeste (SP): R$ 2 milhões
Santo Antônio de Posse (SP): R$ 7 milhões
São Gabriel do Oeste (MS): R$ 3 milhões
São Roque (SP): R$ 93,15 milhões
O caso do Banco Master evidencia um padrão inquietante: fundos que deveriam proteger o futuro dos servidores estão repetindo erros que já custaram caro ao país.
A falta de rigor, a tentação por rentabilidades irreais e a visão curta de gestores mal preparados criam o cenário perfeito para que tragédias financeiras reapareçam.
Em um país onde o trabalhador precisa, cada vez mais, estender seu tempo de contribuição para garantir o essencial, a irresponsabilidade na gestão previdenciária não é apenas um problema técnico.
É uma traição social.
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